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Entrevista: “Elas têm dificuldade de ascender mesmo já dentro do jogo”, afirma Fernanda Argolo, do livro Golpe na Perspectiva de Gênero

Lançamento do livro no Rio de Janeiro. Foto: Arquivo pessoal

Ao longo do processo que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, pesquisadoras de gênero apontavam o machismo e a misoginia que permeavam as críticas, principalmente em redes sociais. O livro “Golpe na Perspectiva de Gênero”, da editora Edufba, apresenta ensaios que discutem o impacto do machismo nas relações políticas. Lançado este ano, o livro é editado por Linda Rubim e Fernanda Argolo, pesquisadoras do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura da Universidade Federal da Bahia, que estão promovendo o lançamento em diferentes cidades brasileiras. 
Na publicação, parlamentares, ex-ministras e professoras trazem suas visões e perspectivas sobre os mandatos e o impeachment de Dilma, e associam o episódio a outras situações vivenciadas ou testemunhadas em diferentes esferas políticas. A Gênero e Número entrevistou Argolo, que destaca a necessidade de incluir machismo e relações de poder nos debates em ano eleitoral: “a gente precisa debater primeiro para compreender”.

Por Lola Ferreira*

Gênero e Número – Como surgiu a decisão de editar o livro?

Fernanda Argolo – Então, o segundo mandato da Dilma já é mais conturbado, já vem na sequência das manifestações de 2013, um pouco mais complicado. Ao longo de 2015 tem uma campanha contra ela, e percebemos que o debate de gênero no processo do impeachment era silenciado. Aparecia de forma muito rasteira, como algum comentário, mas ninguém investigava e problematizava a fundo. Além do impeachment, na gestão mesmo, o gênero era sempre um “patinho feio”. Então a gente começou a pesquisar sobre o tema e a não achar nada. Os temas que saíram na época tratava mais de “petismo”, “lulismo”, “corrupção”, mas a questão de gênero sempre no segundo plano. Então o livro nasce de uma necessidade desse debate, para combater o silenciamento dessa pauta.

Ainda hoje há pessoas que evitam relacionar o impeachment com questões de gênero. Vocês enfrentaram resistência?

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Fernanda Argolo – Nós enfrentamos pouca resistência. Algumas pessoas dizem que não foi gênero o motivo do impeachment. E a gente deixa claro no texto de apresentação do livro que a gente não desqualifica a questão [do impeachment] e nem está dizendo que gênero influenciou na balança, mas que gênero compôs o processo de impeachment. Aliás, gênero permeia as narrativas sobre a Dilma desde a campanha de 2010 e interfere no dia a dia de todas as instituições democráticas de direito.

De acordo com os ensaios do livro, qual foi o papel das mídias durante o processo de impeachment de Dilma, no que tange ao gênero?

Argolo – A nossa cultura é machista, e a imprensa não está fora da cultura, ela perpetua os signos e símbolos espalhados na nossa cultura. O que os ensaios, assim como a nossa pesquisa, deixam claro é que a mídia usou símbolos para desqualificar a Dilma de forma muito machista. Temos uma série de episódios, e a figura da mulher histérica, com descontrole e destempero, permeia o tempo todo a narrativa. Tem uma desqualificação que alguns textos trazem que é muito importante: a desqualificação de Dilma como “ator político”. Apesar da trajetória dela estar ligada à política, inclusive foi uma das fundadoras do PDT, negligenciam esta história para dizer que ela não é política, que não é do meio político e que era inapta e inábil para lidar com políticos. Entram na questão da aparência, na questão familiar, dela não ser casada. Questões que a gente quase não vê quando se trata de uma cobertura masculina. Quando digo que começa em 2010, é porque desde a primeira campanha a chamam de “poste de Lula”. O machismo foi usado para desqualificar a liderança de Dilma todo o tempo, com um homem presidente não aconteceria isso. A violência política nas mídias, inclusive nas redes sociais, foi muito grande. A deslegitimação é alta, porque tivemos gestores ruins muito ruins, mas a desqualificação enquanto políticos não é da mesma forma, nunca pela questão de gênero.

Falando das mulheres publicadas, como foi a seleção delas e dos temas para o livro?

Argolo – O tema era livre, dentro do grande tema “gênero e impeachment”. Foi livre para que cada uma pudesse trazer sua experiência, que é a grande riqueza. O livro se torna interessante porque além da questão acadêmica tem uma questão de dia a dia e cotidiano. As pessoas podem se ver no livro em alguma medida, porque provavelmente vão encontrar em algum episódio algo que lhes aconteceu. Então temos relatos de experiência, como a senadora Vanessa Grazziotin, que vivenciou o processo de impeachment, temos relatos das ministras das pastas de mulheres. Temos também relatos de professoras que lidam com gênero e política há muitos anos no Brasil e que conseguem ter clareza de como o machismo está arraigado na democracia e como afeta o desenvolvimento democrático. Cada uma traz o seu olhar. Um texto muito bonito, e que hoje é ainda mais simbólico, é o da vereadora Marielle Franco. O convite a ela foi pensando porque tivemos a saída da presidente Dilma, mas também a eleição de uma mulher negra, com potencial transformador extraordinário. Lamentamos muito que ela não pôde ver o trabalho publicado. Foi um processo difícil, porque perdemos uma. Sempre vai ser difícil.

Senadora Vanessa Grazziotin assina o ensaio "Dilma : símbolo par a a participação política feminina" no livro. Foto: Arquivo pessoal / Fernanda Argolo
Senadora Vanessa Grazziotin é autora de um dos 12 ensaios do livro. Foto: Arquivo pessoal / Fernanda Argolo

O livro afirma que na política “a mulher ainda é marcada pela falta”. Qual é a forma de reverter ou melhorar este cenário depois de 2016?

Argolo – Primeiro de tudo é a necessidade de uma reforma política para mudar como é estruturada a participação feminina em eleições. Os partidos não se preocupam em atrair mulheres, e quando elas participam dos partidos são pouco indicadas para as eleições. Há pouco apoio, pouco financiamento. A falta é marcada, então, por outras formas, o “está mas não está”. Quando falamos falta, é uma falta estrutural porque quando uma mulher está nos partidos políticos há barreiras sociais e econômicas para ela estar ali. As que furam essa barreira têm um milhão de obstáculos depois. A mulher tem vários empecilhos para ter mais êxito. Muitas deputadas e senadoras falam da dificuldade que é avançar na hierarquia política, porque os partidos não incentivam. Elas têm dificuldade de ascender mesmo já dentro do jogo. A solução é exigir mais, apoiar mais as mulheres, mas também precisamos de reforma estrutural nas instituições democráticas para mudar de fato e não somente de forma paliativa. Hoje, quando falamos da falta, surge sempre a exceção à regra. Dilma foi uma exceção à regra, as mulheres políticas publicadas no livro são vistas como exceções e pioneiras, mas a gente continua amargando uma posição desigual e assimétrica.

Nossa democracia ainda é recente. É possível relacionar a falta de debate sobre gênero com a falta de estabilidade do sistema político?

Argolo – Há um debate global sobre a crise da representação democrática, que não afeta apenas o Brasil. Há também uma movimentação maior dos grupos que são minoria no poder e maioria na sociedade, que estão fora do debate democrático. Autores antigos já diziam que uma democracia em que a maior parte está fora irá ampliar a desigualdade. Quando as pessoas negligenciam o debate e não atacam o problema de desequilíbrio da participação social, estão reforçando a manutenção de um sistema. É óbvio que quem detém o poder luta contra os grupos que querem participar, por medo de perder o espaço. A ascensão de mulheres deflagra a inquietude em quem está confortável. Há uma briga pela manutenção do status quo.

Então o debate para tornar a política mais igualitária passa, necessariamente, pelas questões de gênero?

Argolo – Sim, a gente precisa debater primeiro para compreender. Nos últimos tempos investiu-se muito na demonização do conceito e debate sobre gênero. Foi criada uma anomalia em cima do gênero, houve um desvirtuamento. Então, mais pessoas têm que tomar consciência de como as questões de gênero afetam seu cotidiano, como essas questões organizam a nossa vida. Assim, podemos dizer como queremos viver, se é da mesma forma ou se queremos mudar. A gente precisa saber que estamos vivendo sob esse aspecto das relações de gênero, para depois discutir que democracia queremos.

Como todo o processo abordado no livro pode interferir na vida das mulheres na política partidária?

Argolo – Talvez seja difícil dizer em relação já a 2018, porque é tudo recente e acontece ao mesmo tempo. Estamos pesquisando os efeitos, mas é cedo para dizer os efeitos a médio e longo prazos. De imediato, temos alguns resultados ruins. A saída da Dilma culminou no desmonte da Secretaria de Políticas para Mulheres, que se tornou um departamento dentro do Ministério da Justiça, e com o fim de várias políticas. Houve, também, a diminuição das mulheres no Executivo Nacional, porque não tivemos ministras. Logo após a saída dela, houve uma ofensiva contra a participação das mulheres nesses cargos. Mas há um movimento duplo, eu acho. Tivemos os cortes, mas movimentos de mulheres jovens se fortaleceram e têm se movimentado para mobilização e luta contra a desigualdade na política. Precisamos de mais tempo para entender quais vão ser as respostas sociais.

Após verem o resultado publicado, vocês esperam qual impacto do livro para o debate de gênero na política?

Argolo – A gente se surpreendeu com a receptividade de outras pessoas, de outros meios. Pessoas que dizem ‘também vivo isso no meu ambiente de trabalho’. Então a nossa pretensão mesmo é dar visibilidade ao debate. Fazer as pessoas verem que às vezes lemos um texto na revista, um vídeo na televisão, e nossa cabeça não faz essa associação automática com a discriminação de gênero, que está tão enraizada no dia a dia. O livro traz esse dado de reflexão, de coisas que nos acontecem diariamente e que por estar tão naturalizado não problematizamos mais. Achamos que é natural, mas não é. É um livro de olhares múltiplos, de vários Estados, então não é um livro apenas para estudantes. É para todo mundo que quer entender um pouco da história do país e como funcionam as estruturas de gênero na política. Enquanto não passarmos por esse debate, a democracia vai permanecer “bamba”.

*Lola Ferreira é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.

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