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Dificuldades financeiras e falta de acesso à internet impactam universitários negros e de baixa renda no retorno às aulas online

Alunos brancos são 48,8% dos que possuem domínio do uso do computador enquanto estudantes negros representam apenas 10,6% |Foto: Midia Ninja

Boletim do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) aponta os obstáculos à permanência e empenho acadêmico de alunos negros nas universidades federais; estudantes ouvidos pela Gênero e Número  criticam falta de diálogo com instituições e assistência estudantil insuficiente durante a pandemia e no ensino remoto emergencial

Por Vitória Régia da Silva*

Desde que foi decretado o isolamento social em março deste ano, as universidades federais suspenderam suas aulas presenciais. Após 5 meses sem aulas, elas começam a retomar ou planejar o retorno de forma virtual. Segundo levantamento do Ministério da Educação (MEC), 19 universidades continuam com as atividades suspensas, 47 operam ou estão se organizando para operar de forma remota e três funcionam de maneira parcial, mas o retorno das aulas de forma online encontra dificuldades devido à alteração do perfil socioeconômico dos estudantes e falta de acesso à internet. 

Ao longo dos anos, houve uma mudança significativa no perfil do corpo discente universitário, especificamente em relação às características econômicas e raciais. Com a aprovação da lei de cotas, entre 2013 e 2018, mais de 645 mil vagas foram reservadas para o ingresso de estudantes de escolas públicas, pessoas pretas, pardas e indígenas, e pessoas com deficiência, segundo pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).  Essa mudança trouxe outras demandas para o espaço universitário e reforçou a importância dos programas de assistência estudantil.

Os dados evidenciam a importância deste debate. Os principais fatores que afetam a vida e o empenho acadêmico de homens e mulheres pretas e pardas (que formam o grupo negras) são as dificuldades financeiras. Em relação às mulheres negras, 26% citam as dificuldades financeiras, seguida de problemas emocionais (24%) e carga excessiva de trabalhos estudantis (23%). Os homens negros também citaram as dificuldades financeiras na mesma proporção (26%), além da falta de disciplina para estudar (24%) e o tempo de deslocamento para a universidade (17%).

O levantamento está presente no boletim “Raça. Gênero e Saúde Mental nas Universidades Federais”, realizado pelo  Gemaa, que analisa os dados da V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de Graduação das Instituições Federais de Ensino Superior Brasileiras, patrocinada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e pelo Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Estudantis (Fonaprace), realizada em 2018.

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“Quando olhamos toda a amostra da pesquisa, a questão financeira é colocada como uma das principais questões para permanência, mas quando separamos por gênero e raça, conseguimos observar esse impacto maior da condição financeira para pessoas pretas e pardas. Apesar de ser mencionada em algum momento por pessoas brancas, isso nem entra como seus principais problemas, enquanto para pessoas pretas e pardas é o principal”, comenta Poema Eurístenes Portela, pesquisadora do Gemaa e doutoranda de sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj).

Para a pesquisadora, como as cotas raciais estão presentes dentro das cotas sociais, os alunos cotistas negros já são um grupo vulnerável economicamente. Porém, como a pesquisa é feita com todos os alunos, cotistas e não cotistas, é possível ir além e relacionar com a condição socioeconômica da população brasileira, e isso é uma dificuldade maior para pessoas negras.

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Segundo a análise do Gemaa, 21% dos homens brancos disseram não apresentar dificuldades de empenho acadêmico. “É  interessante pontuar isso porque indica como a experiência universitária para esse grupo é diferente em relação aos homens negros, por exemplo, que apontam questões financeiras e de deslocamento. Esse dado revela como, a depender do seu gênero e da cor da sua pele, sua experiência no espaço universitário pode ser diferente”, destaca Portela. 

Na análise do Gemaa sobre permanência na universidade e principais motivações para abandono, as mulheres negras são as que mais declararam pensar em abandonar o curso em que possuem matrícula ativa (55%), seguidas por mulheres brancas (52%), homens negros (48%) e, por fim, homens brancos (46%). Mulheres e homens negros mencionaram novamente as dificuldades financeiras com principal motivação para abandono, 37% e 36% respectivamente.

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Ensino Remoto Emergencial

Em junho deste ano, o MEC publicou a portaria nº 544 que trata da substituição das aulas presenciais por aulas em meios digitais enquanto durar a situação de pandemia do novo coronavírus. Apesar de ser uma saída, ainda que tardia, para a suspensão das aulas, o ensino remoto emergencial reacende o debate da desigualdade de acesso à internet e de domínio do uso de computador, que tem um viés socioeconômico e racial.

Segundo a  V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de Graduação das Instituições Federais de Ensino Superior Brasileiras, alunos brancos são 48,8% dos que possuem domínio do uso do computador entre estudantes universitários, enquanto estudantes negros representam apenas 10,6%.

O MEC anunciou, nesta quarta-feira (19), medidas para promover o acesso à internet a alunos de universidades e institutos federais durante a pandemia. A expectativa é de atender inicialmente 400 mil estudantes de famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo, podendo chegar a 900 mil estudantes com renda de até 1,5 salário mínimo posteriormente. 

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Em meio a este cenário de mudanças da modalidade de ensino e incerteza sobre o retorno presencial, a Gênero e Número resolveu olhar para as três universidades federais com maior número de discentes, de diferentes regiões do país, para entender o impacto do ensino remoto para os estudantes universitários e para as instituições federais.  

As instituições são a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

Estudantes negras ouvidas pela Gênero e Número relatam a falta de diálogo da universidade no processo de implementação do ensino remoto emergencial e dificuldades dos alunos em acessar as plataformas digitais devido a problemas no acesso à internet e falta de equipamentos. 

Dificuldades de implementação

Entre as universidades federais, chama atenção o caso da UFMS, que começou o ensino remoto ainda em março de 2020, não havendo suspensão das aulas. A substituição compulsória das aulas e as atividades presenciais sem diálogo com os estudantes e docentes é criticada. Segundo reportagem do Sindicato Nacional dos Docentes de Ensino Superior, o ensino remoto foi imposto, e a reitoria ignorou as condições sociais e de infraestrutura dos estudantes. 

“A nossa universidade é um centro de referência de educação à distância, então, teve um pouco mais de facilidade em pensar a construção de um ensino remoto. O problema é que não foi construído junto com os alunos, e só foi feito um levantamento das necessidades dos alunos e disponibilização de auxílios de inclusão digital depois que já tinha sido implementado. Foi uma decisão de cima para baixo, e não existiu um diálogo do que fazer neste momento”, conta Agnes Viana, 22, estudante de pedagogia da UFMS e coordenadora do Diretório Central dos Estudantes (DCE).

Segundo a estudante, quando a universidade apresentou o ensino remoto como uma saída para a continuidade das aulas, o DCE enviou uma lista das demandas e necessidades dos estudantes para esse contexto, como a suspensão do calendário acadêmico, o que não aconteceu. “A única possibilidade apresentada para não fazer o ensino remoto foi o trancamento das disciplinas, mas isso é a individualização de um problema coletivo, porque você coloca sobre a responsabilidade do indivíduo que não tem condição de permanecer a escolha de abrir mão de estar na universidade”, pontua. 

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Entre as medidas realizadas pela universidade para a inclusão digital está um auxílio emergencial de acesso à internet, com edital publicado em 14 de agosto, para até dois mil estudantes economicamente vulneráveis. Os valores do auxílio são concedidos de acordo com o número de disciplinas em que o estudante está matriculado, variando de  R$ 40 a R$ 80 por mês. Além disso, só em julho foi divulgado o resultado dos estudantes contemplados com o empréstimo Equipamento Tecnológico para as aulas remotas do primeiro semestre. 

Na UFRGS, as atividades foram retomadas de forma remota nesta quarta (19), mas antes disso a universidade realizou uma pesquisa para entender o perfil socioeconômico dos alunos e seu acesso à internet. Segundo o mapeamento, 357 dos respondentes (2,4%) não têm acesso à internet,12,3% assinalaram que não costumam utilizar wi-fi em sua residência e 14,3% são beneficiários do programa de assistência estudantil da universidade, que fornece auxílio para pessoas de baixa renda. Os números podem ser maiores, visto que a pesquisa foi realizada de maneira digital e alcançou apenas 46,1% dos alunos da graduação.

A adesão dos alunos ao ensino remoto é facultativa, todas as aulas deverão ser gravadas e será proibido reprovar por falta. “A pandemia tem mexido com a saúde mental de muitos estudantes que neste momento não se sentem motivados a retomar uma atividade de ensino. Temos estudantes de baixa renda que não têm condições adequadas para retomar as atividades, e essa possibilidade contempla todo e qualquer estudante que por alguma razão queria manter o vínculo com a universidade, mas não se sente em condições de acompanhar o ensino remoto”, destaca Suzi Camey, pró-reitora de Assuntos Estudantis da UFRGS. 

Para tentar reduzir a desigualdade de acesso, a UFRGS disponibiliza cerca de 9,5 mil auxílios financeiros aos alunos de baixa renda, como auxílios de inclusão digital de R$ 70 para pagar internet e R$ 360 para comprar tablet. Além disso, foi oferecido apoios de R$ 300 para alimentação e R$ 200 como auxílio-covid. 

“Sabemos que o recurso para a compra de equipamentos não é o ideal, mas é o que o orçamento permite neste momento. Se tivéssemos mais recursos, disponibilizaríamos equipamentos melhores para os estudantes”, disse a pró-reitora. “Dentro da vulnerabilidade social, temos diversos níveis, mas em um universo muito grande de alunos é difícil fazer essa discriminação, esse ajuste fino, então, temos que optar por soluções que sejam em massa”.

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A UFRJ teve que adiar o início das aulas remotas por conta de uma alteração no processo de aquisição dos chips de acesso à  internet para alunos de baixa renda. O início, que estava previsto para 10 de agosto, foi adiado para o dia 24. “O debate do ensino remoto foi feito de forma arbitrária, a reitoria mostrou dificuldade em construir um plano com a base, os alunos, desde o início do processo”, critica Mykaella Moreira dos Anjos, 21, estudante de psicologia e parte do DCE Mário Prata.

A UFRJ informou que vai oferecer 13 mil kits de acesso à internet aos estudantes de graduação e pós-graduação que tenham renda familiar per capita de até um salário mínimo e meio e um auxílio de R$1.000 para compra de equipamento para possibilitar o ensino remoto. De acordo com a universidade, se as condições de inclusão digital não forem implementadas, o calendário pode ser alterado; o auxílio terá duração de seis meses, podendo ser renovado por mais seis.

“Importante pontuar que, no início, a pró-reitoria de assuntos estudantis tinha uma proposta de ser uma parcela de R$ 850  [para a compra de equipamentos], esse acréscimo de R$ 1.000 foi uma reivindicação e uma vitória dos estudantes. Esses programas não suprem toda a vulnerabilidade dos estudantes, até porque esse auxilio de compra de equipamentos é uma grande ajuda, mas ele efetivamente não compra o equipamento. Um notebook de qualidade custa o dobro desse valor”, comenta a estudante de psicologia.

Além disso, segundo Mykaella Moreira dos Anjos, o debate da assistência estudantil não deve se resumir a “bolsificação”, simplesmente em dar dinheiro aos estudantes. “Esse debate faz parte de um processo muito mais complexo e mais amplo, em que os estudantes que estão em situação de vulnerabilidade, cotistas, de baixa renda e negros em sua maioria, moram em áreas periféricas, em uma realidade em que têm que dividir seus cômodos, não têm espaço para estudar, ou que no meio das suas aulas pode estar acontecendo uma operação policial que vai impedir seu acompanhamento. Quando falamos da inclusão desses alunos e acompanhamento real das aulas, temos que discutir isso também”, finaliza.

*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número