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Desencorajadas por falta de apoio de parceiros e acúmulo de funções, mulheres casadas são minoria entre candidatas ao Legislativo

Mulheres sem cônjuge são maioria rumo ao Senado. | Foto: Moreira Mariz/Agência Senado

Candidatas solteiras, divorciadas ou viúvas são 60% do total de mulheres que tentam cargo no Legislativo em 2018, enquanto 39% dos homens estão na mesma situação, em cenário que se repete nos últimos 20 anos; proporção de casadas é maior entre eleitas, o que sugere apreço do eleitorado por “modelo de família tradicional”, avalia pesquisadora

Por Lola Ferreira*

Na soma de todos os cargos do Legislativo em disputa neste ano, a proporção de mulheres sem cônjuge (divorciadas, separadas, solteiras ou viúvas) que pleiteiam uma vaga é exatamente inversa à proporção de homens na mesma condição. Entre as candidatas ao Senado, à Câmara de Deputados e às Assembleias Legislativas estaduais, 40% são mulheres casadas e 60% são mulheres solteiras, separadas, divorciadas ou viúvas. Já entre os homens, 61% se declararam casados ao registrar suas candidaturas no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A disputa pelo Senado é a que guarda mais discrepâncias entre as candidaturas de mulheres e de homens. Os candidatos a senadores que são casados são 72% dos homens. Entre aqueles sem cônjuge, 12,4% se declaram solteiros. É a menor proporção de homens solteiros entre os que buscam uma vaga no Legislativo. Já entre as mulheres que buscam uma cadeira no Senado em 2018, 34% são solteiras.

Mesmo com políticas para a inclusão de mulheres na corrida eleitoral, como a lei 12.034/2009, que determinou o mínimo de 30% e máximo de 70% de candidaturas de cada gênero em chapas proporcionais, não houve mudança significativa na proporção entre candidatas e candidatos sem cônjuge e com cônjuge. De 2006 para 2010, primeiro ano de vigência da lei de cotas, o número de mulheres candidatas à Câmara dos Deputados saltou de 725 para 1.335. Já a proporção de casadas diminuiu de um ano para o outro: eram 45% em 2006 e foram 40% em 2010. Entre os homens, a proporção dos casados diminuiu um ponto percentual.

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Estado civil dos candidatos ao Legislativo nas últimas eleições

Doutora em Ciência Política pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), Maria Luzia Miranda Álvares afirma que os papéis sociais de gênero se manifestam em dois pontos fundamentais que dificultam a trajetória política da mulher quando relacionados ao estado civil: na falta de apoio dos parceiros homens e na culpa por se dedicar à vida profissional.

Em sua tese de doutorado, “Mulheres na competição eleitoral: seleção de candidaturas e padrão de carreira política no Brasil”, a pesquisadora observou variáveis que compõem o perfil político de mulheres e homens. Durante a pesquisa, ela afirma, mulheres relataram atritos domésticos por falta de apoio dos parceiros à carreira escolhida.

“Muitas mulheres se queixam de que não têm apoio nenhum e que muitas vezes cria-se uma arrefecimento entre ela e o marido. Quando é o contrário, e o homem decide pela carreira política, a mulher entende que ele é ‘o homem da política’, e dá um suporte que socialmente ele não dá a ela”, afirma Álvares.

A culpa, segundo a pesquisadora, estaria ligada ao “amor maternal”, sinônimo de cuidado no imaginário social, independentemente de a mulher ter ou não filhos. “O ‘amor materno’ define situações tão precisas e específicas no modelo atual feminino, que entranha-se na sociedade. Algumas candidatas evidenciam que quando elas têm a casa, mesmo com o marido, cabe a elas fazer o supermercado, cuidar das tarefas. E quando elas não fazem, se sentem culpadas”, aponta.

A pesquisadora também aponta que o entendimento do “ser político” é o que permite ao homem estar confortável em uma ocupação que exige dedicação intensa fora de casa. “Definiram que as ações masculinas eram as do espaço público, não do privado, e era deles a responsabilidade de ‘ter visão’ da política e, consequentemente, absorverem os processos da política, como legislar”, contextualiza Álvares, que leciona há 40 anos na UFPA (Universidade Federal do Pará).

Cenário pós-eleição

Entre os eleitos, a proporção de mulheres casadas sobe nos três cargos, e a de homens dispara. Essa diferença fica mais nítida nos cargos em que políticos precisam se deslocar de seu Estado de origem para Brasília, caso dos ocupantes do Congresso Nacional. Os homens eleitos para o Senado em 2014 eram majoritariamente casados: 73%. As mulheres eleitas e casadas, 40%. Na Câmara dos Deputados, houve mais mulheres casadas eleitas, 53%, mas a proporção entre os homens de deputados casados é de 75%.

A proporção de mulheres casadas ser maior entre as eleitas do que entre as candidatas evidencia, segundo Álvares, como o modelo de “família tradicional” ainda é considerado por eleitores ao votar em uma mulher. “O casamento tem um valor muito forte ainda na sociedade, da união, da estabilidade. Independemente de as pessoas acharem que ‘o casamento já acabou’. Ele continua a ter valor para os eleitores, porque ainda está marcado pela cultura que essas mulheres vivem no modelo tradicional.”

Nas Assembleias Legislativas, a proporção de mulheres eleitas e casadas e de homens na mesma situação se equipara: 73% delas e 74% deles. Também neste cenário, que não envolve mudança de Estado para as eleitas e os eleitos, a proporção de mulheres solteiras se aproxima à de homens na mesma condição: 15% delas e 16% deles.

A pesquisadora analisa a diferença na proporção de mulheres com e sem cônjuge eleitas para cargos que envolvem mudança para Brasília. Para ela, “adaptar a família a um novo local de vivência é uma dificuldade para a maioria [das mulheres]”. O homem, equiparado ao “ser político”, teria menos problemas em se afastar do lar para desempenhar suas funções públicas, assim como no arranjo tradicional as famílias se deslocam para acompanhar a vida profissional do pai e do marido, não tanto da mãe e da esposa.

Álvares considera que houve avanços na sociedade para entender as mulheres como participantes da política partidária, mas não o suficiente para equiparar tais proporções de mulheres e homens no poder – e de mulheres e homens com e sem cônjuge na política. Para a pesquisadora, dispositivos para facilitar o movimento de mudança poderiam ser propostos no próprio Congresso, como “adaptação de horas semanais de trabalho”.

*Lola Ferreira é jornalista e colaboradora da Gênero e Número

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