close

Na contramão da “despetização” do governo Bolsonaro, Damares Alves nomeia evangélica filiada ao Partido dos Trabalhadores para secretaria nacional

Petrúcia de Melo Andrade foi anunciada secretária dos Direitos da Criança e do Adolescente. | Foto: Reprodução / Youtube

Indicada para comandar Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente na última quarta-feira, Petrúcia de Melo Andrade é alagoana e construiu trajetória consistente como consultora de políticas públicas para mulheres após superar origem pobre e trabalho como costureira 

Por Lola Ferreira*

Se já no segundo dia de governo Bolsonaro o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou que iria fazer uma “despetização” do quadro de funcionários da administração federal, a ministra Damares Alves – do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos – tem priorizado outros critérios que não a orientação partidária para compor seu ministério. É o que fica evidente com a nomeação da evangélica Petrúcia de Melo Andrade, 65 anos, anunciada secretária nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Andrade é filiada ao Partido dos Trabalhadores desde 15/03/2010, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral. A situação do registro está regular e não havia informações sobre desfiliação até a manhã do dia 5 de janeiro.

Andrade também assinou um manifesto público em defesa de Dilma Rousseff (PT) durante o processo de impeachment. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi um dos mais ferrenhos críticos do governo de Rousseff enquanto deputado federal. Na votação da Câmara dos Deputados sobre a denúncia por crime de responsabilidade, que culminou no impedimento da então presidente, Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador condenado e algoz de Dilma.

O nome de Petrúcia de Melo Andrade foi anunciado na quarta-feira (2) por Damares Alves, Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, pasta à qual a secretaria está subordinada. Andrade é psicóloga e especialista em Criminologia e Violência Urbana. Na prefeitura de Contagem, em Minas Gerais, coordenou o PAIR (Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes) e integrou a Coordenadoria de Políticas para Mulheres. O site do Ministério informa que ela também tem experiência em Gestão Pública e é professora de Psicologia Aplicada e Ética Profissional.

Em março de 2015, Andrade foi uma das 400 signatárias do manifesto “Um Apelo Evangélico: O caminho é mais oração, mais democracia e mais ética”. No documento, lideranças e membros de igrejas evangélicas assinam embaixo de um texto que se posicionava a favor da democracia e contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Um dos trechos do manifesto aponta: “(…) E, por isso, entendemos que nesse contexto não cabem ações ou manifestações que visem a quebra da ordem constitucional inclusive o impedimento ilegal e injustificado de mandatos legítimos, pois isso tende a enfraquecer as instituições do Estado de Direito sobre as quais se sustenta nossa ainda jovem democracia”. Ao final, o manifesto faz um apelo: “Oremos ainda para que forças antidemocráticas e até contrárias ao estado de Direito não prevaleçam, inclusive usando o discurso enganador da defesa da liberdade e da justiça, como em outros momentos de nossa história”.

Integrante da Igreja Batista Getesêmani, Andrade foi a assinatura de número 279 do documento que conta também com nomes de outros cristãos progressistas, como a pastora Lusmarina Campos Garcia — que se tornou conhecida nacionalmente ao argumentar a favor da descriminalização do aborto na audiência pública no STF (Supremo Tribunal Federal) em agosto de 2018.

Em vídeo de 2017 divulgado na internet, Petrúcia de Melo Andrade defende o trabalho evangélico e das políticas junto a mulheres mães encarceradas, destacando a importância da convivência da mãe com os filhos para proteção da criança e do adolescente. No mesmo vídeo, Petrúcia reafirma sua origem humilde e fala da trajetória, que teve início no trabalho como costureira, antes de adentrar a faculdade e descobrir a vocação para o trabalho social, junto à gestão pública e às mulheres.

O Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos tem, além de Andrade, outros sete secretários nacionais: Tia Eron (Políticas para as Mulheres), Angela Gandra Martins (Família), Jayana Nicaretta da Silva (Juventude), Sérgio Augusto de Queiroz (Proteção Global), Sandra Terena (Políticas de Promoção da Igualdade Racial), Priscilla Roberta Gaspar de Oliveira (Direitos da Pessoa com Deficiência) e Antônio Fernandes Toninho Costa (Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa).

*Lola Ferreira é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.

close-image