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Artigo: A cruzada antifeminista do governo Bolsonaro

A ativista Sara Winter e a ministra Damares Alves, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos | Foto: Reprodução

Protagonismo de mulheres antifeministas não é casual: cruzada está no cerne do atual governo federal, eleito com uma plataforma baseada na reação aos avanços movidos pelos movimentos feministas e ao fortalecimento desses e de outros movimentos sociais na última década

Por Carolina de Assis*

A ativista Sara Winter, de 26 anos, conta que aos 22, “desesperada”, realizou um aborto. “Tive sequelas físicas e emocionais terríveis que quase me levaram a óbito”, afirma. Winter lamentavelmente viveu o que cerca de um milhão de brasileiras vivem todos os anos, de acordo com estimativa do Ministério da Saúde, devido à criminalização em vigor no Brasil da interrupção voluntária da gestação.

A experiência traumática de Winter com um aborto clandestino e inseguro – como é possível inferir das palavras da ativista – é uma das principais motivações para que movimentos feministas reivindiquem o direito das mulheres ao aborto legal, seguro e gratuito. Outros tipos de violência contra mulheres, como violência doméstica e sexual, cujo combate é uma das principais razões de ser dos movimentos feministas, também aparecem na biografia de Winter.

A ativista, porém, elaborou suas vivências de outro modo. Catapultada para o turbilhão midiático em 2012 como o rosto no Brasil do Femen, grupo ucraniano que se dizia “neofeminista” e “sextremista”, pouco depois passou a se autoproclamar “ex-feminista” e hoje pede contribuições financeiras de seus seguidores para “salvar bebês da monstruosidade do aborto”.

Não é por acaso que Sara Winter foi chamada pela ministra Damares Alves a ocupar um cargo na Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A cruzada antifeminista está no cerne do atual governo federal, eleito com uma plataforma baseada na reação aos avanços movidos pelos movimentos feministas e ao fortalecimento desses e de outros movimentos sociais na última década.

Um dos avanços destes movimentos é justamente o espaço ocupado por Alves, e futuramente por Winter, no governo. A instituição da SPM em 2003 foi um marco na história do país por ser o primeiro órgão estatal no primeiro escalão do governo voltado para a elaboração de políticas públicas em prol das mulheres. Sofreu reveses desde então, que culminam em seu encolhimento em um ministério que se diz “da mulher”, mas somente daquela que está junto à “família” – a cristã, a única digna de reconhecimento em um governo que se colocou acima tudo, inclusive da lei, com seu deus acima de todos.

O protagonismo das mulheres antifeministas neste governo não é casual, assim como não são casuais as aparentes incoerências que elas expressam. Damares, que já falou que “o padrão ideal de sociedade” é uma mulher que passa o dia em casa e que tem um marido que a sustente, também já disse que se uniria com as feministas para combater a violência contra mulheres.

Nada pode interessar mais aos homens no poder no governo federal do que uma mulher que pregue que a mulher ideal é aquela confinada ao espaço doméstico e dependente do marido. Ao mesmo tempo, a ministra parece capaz de entender que a raiz da violência de homens contra mulheres é a ideia de que as mulheres lhes pertencem e que a dependência econômica é uma das principais razões para que mulheres permaneçam em relacionamentos com homens que as agridem.

É precisamente o feminismo o movimento político que permite a compreensão de que as violências contra as mulheres se baseiam em estruturas sociais e culturais e não são questões pessoais ou de foro íntimo. E que essas violências só podem ser combatidas e erradicadas por meio de mudanças que tenham como fim a absoluta autonomia das mulheres – e dos homens, é bom acrescentar – diante de qualquer tentativa de enquadrá-las em padrões de comportamento ou identidade. 

*Carolina de Assis é editora da Gênero e Número.

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