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Central no discurso de posse, combate à “ideologia de gênero” é carta marcada há pelo menos oito anos por Bolsonaro

Jair Bolsonaro toma posse como presidente da República em cerimônia no Congresso Nacional. | Foto: José Cruz / Agência Brasil

Presidente da República defendeu, nos dois discursos que fez neste 1º de janeiro, enfrentamento a ‘amarras ideológicas’, com foco no combate a conceito que a Direita tem fomentado como algo perverso na educação e na formação cidadã;  A Gênero e Número fez análise de discursos desde 2011 e aponta como o assunto é fundamental na ascensão do novo líder

Por Lola Ferreira e Natália Leão*

“Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de gênero, conservando nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas.” O trecho é um resumo e dá o tom do que foi o primeiro discurso de Jair Bolsonaro (PSL) ao ser empossado Presidente da República nesta terça-feira (1º), no Congresso Nacional. Ele voltaria a falar sobre a tal ideologia, indiretamente, no segundo discurso, ao apelar às famílias para o restabelecimento de padrões éticos e morais. Há pelo menos oito anos, quando falava como deputado federal, o agora presidente fomenta esse discurso.

Um levantamento feito pela Gênero e Número a partir de todos os discursos disponibilizados pelo sistema da Câmara dos Deputados que publica na íntegra na internet os pronunciamentos em plenárias e em sessões parlamentares mostra que entre 2011 e 2017 o então parlamentar Jair Bolsonaro bradou contra a “ideologia de gênero” ao menos 63 vezes na Câmara dos Deputados. As falas avaliadas foram somente aquelas registradas pelo sistema próprio da casa legislativa, o que significa existir a possibilidade do presidente ter discursado mais vezes sobre o tema — em entrevistas nos corredores do Congresso, por exemplo.

O primeiro registro do levantamento é de 1º de fevereiro de 2011, quando Bolsonaro estava discursando como candidato à presidência da Câmara. À época filiado ao PP (Partido Progressista), Bolsonaro se posicionou contra a distribuição do “kit gay”, assunto que também ganharia centralidade nos anos a seguir, embora sequer tenha existido qualquer kit, como apontaria o próprio Tribunal Superior Eleitoral durante as eleições.

Jovens Parlamentares, este ano escolas públicas de primeiro grau estão distribuindo um kit gay de estímulo ao homossexualismo e à promiscuidade, com a participação desta Casa.

— Jair Bolsonaro (01/02/2011)

Discurso
Discurso moral e religioso estampado também pelo público que foi acompanhar a posse em Brasília. | Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

O kit gay voltou a figurar na fala do presidente outras vezes. Em 11 de junho de 2014, afrontou o PP que apoiou a eleição da presidente Dilma Rousseff. Na opinião de Bolsonaro, foi Rousseff quem comandou a distribuição dos kits inexistentes. Na fala destacada, ele afirma que o tal kit ensinaria “homossexualismo” nas escolas. No discurso feito hoje, no primeiro dia de 2019, Bolsonaro voltou a retomar o assunto ao afirmar que o Brasil deseja boas escolas, que preparem as crianças para o mercado de trabalho e não para a militância política.

O Colégio Pedro II, instituição federal localizada no Rio de Janeiro, foi a única unidade de ensino nominalmente citada por Bolsonaro no período analisado como tendo sido aparelhada por “militância política”.

Em discurso, presidente Jair Bolsonaro afirmou que irá combater ideologia de gênero nas escolas. Na Câmara, exemplificou com instituição federal os maus modelos. | Foto: Tania Rêgo / Agência Brasil
Em discurso, presidente Jair Bolsonaro afirmou que irá combater ideologia de gênero nas escolas. Na Câmara, exemplificou com instituição federal os maus modelos. | Foto: Tania Rêgo / Agência Brasil

É um balão de ensaio o que estão fazendo no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, totalmente tomado por marginais do MST (Movimento dos Sem Terra).  Nós conhecemos a máxima de Lenin, de que não se tomem quartéis, mas sim escolas. Eles agora estão mostrando realmente a que vieram, estão ocupando escolas e, lá dentro, um verdadeiro bunker, estão promovendo o desrespeito à constituição, o desrespeito à família, baseado na ideologia de gênero.

— Jair Bolsonaro (18/10/2016)

Em 2013, ao felicitar Marco Feliciano (PSC/SP) como presidente da Comissão de Direitos Humanos, Bolsonaro explicou o regozijo.

Lá não teremos mais milhões no orçamento destinados a paradas gays; não veremos mais lançamentos de filmes pornográficos infantis, patrocinados pelo MEC, para passar em escolas do ensino fundamental, estimulando o homossexualismo nas escolas; não teremos mais seminários de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, para o público infanto-juvenil, estimulando a pedofilia; não teremos mais parcerias com o MEC para confecção de kit gay.

— Jair Bolsonaro (14/03/2013)

O embate do segundo turno nas eleições presidenciais deste ano, inclusive, não foi novidade. Em discurso feito no dia 16 de outubro de 2012, Jair Bolsonaro dedicou toda a sua fala a “alertar” a população paulistana sobre o caráter do então candidato à prefeitura Fernando Haddad, (PT), apresentado por ele como “pai do kit gay”.

“O Haddad tem que responder publicamente, ele e seu Secretário de Alfabetização, o que é esse kit gay, se ele vai ou não impô-lo em São Paulo ou se é apenas uma promessa de candidato. Ao assumir a Prefeitura, vai impor o kit gay, estimulando crianças de seis, sete, oito e nove anos de idade a serem homossexuais”, disse o deputado no plenário

Bolsonaro recebe faixa presidencial de Michel Temer antes de fazer o seu segundo discurso do dia. | Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
Bolsonaro recebe faixa presidencial de Michel Temer antes de fazer o seu segundo discurso do dia. | Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Família acima de tudo

O segundo discurso de Bolsonaro no dia foi no Parlatório, após receber a faixa presidencial das mãos de Michel Temer. Ali, o presidente apelou às famílias para que, juntos, os valores morais fossem “resgatados”.

“Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. E convido a todos para iniciarmos um movimento nesse sentido. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”

No levantamento feito pela Gênero e Número, Bolsonaro cita a palavra “família” 75 vezes. O auge da exaltação do núcleo tradicional familiar foi em 17 de abril de 2016, data que marcou a votação da casa sobre a denúncia contra a presidente Dilma Rousseff por crime de responsabilidade — que ocasionou em seu impeachment. Na mesma ocasião, Bolsonaro também dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador condenado.

Em outro discurso, em 15 de agosto de 2013, Bolsonaro afirmou que a intenção do Partido dos Trabalhadores com a iniciativa de cotas para professores homossexuais era “desgraçar o tecido social, esculhambar com os valores familiares, porque uma família destruída é mais fácil de ser cooptada para o PT”.

Ao final do discurso no Parlatório, Bolsonaro acenou para a multidão com uma bandeira do Brasil. Logo depois, afirmou que ela jamais será vermelha (cor associada ao socialismo, que ele prometeu extinguir, mas também do Partido dos Trabalhadores), somente com seu sangue, caso haja a necessidade de mantê-la verde e amarela.

Presidente Jair Bolsonaro e o vice-presidente Hamilton Mourão exibem a bandeira nacional e presidente afirma que ela "jamais será vermelha" | Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
Presidente Jair Bolsonaro e o vice-presidente Hamilton Mourão exibem a bandeira nacional e presidente afirma que ela “jamais será vermelha” | Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O que esperar após o discurso

Bolsonaro não fala sozinho no Congresso Nacional. Já era assim desde 2011, quando aumentou o tom para declarar enfrentamento à “ideologia de gênero”, e seguirá acompanhado de outras vozes em 2019. Na equipe ministerial, inclusive.

Já há até o termo “núcleo ideológico”, usado por analistas políticos e também por críticos do governo, para definir o grupo composto pelo próprio presidente, Jair Bolsonaro, pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O diplomata de carreira é um dos que engrossam o discurso de que o país caiu na vala de um regime ateísta corrupto, clama a Deus e já radicaliza o discurso religioso ao falar da atuação no pasta que assumiu.

No Legislativo, a bancada do PSL, agora com 52 parlamentares, sustenta o mesmo discurso de enfrentamento a essa “ideologia perversa”, quase como uma bandeira. Em outubro de 2017, a jornalista Joice Hasselmann, eleita deputada federal em 2018 como a mulher mais votada para o cargo, chegou a publicar vídeo no seu canal do Youtube onde atacava a escritora e pesquisadora Judith Butler. O vídeo define Butler como “a bruxa da ideologia de gênero”, conta com mais de 100 mil visualizações. Neste 1º de janeiro, o discurso de enfrentamento se tornou presidencial. Saiu dos grupos de Whatsapp e das redes sociais, subiu a rampa do planalto, indicando que há um debate árduo a ser realizado entre progressistas e ultraconservadores.

*Lola Ferreira é jornalista e Natália Leão é pesquisadora e analista de Dados da Gênero e Número

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