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Cuidadoras enfrentam abusos e riscos na pandemia de coronavírus

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Número de profissionais cresceu 690% entre 2004 e 2017, e cerca de 85% são mulheres, que muitas vezes realizam tarefas que vão além dos cuidados com pacientes; em 2019, Bolsonaro vetou regulamentação da profissão 

Por Maria Martha Bruno* 

“Não estou perguntando se você pode. Estou dizendo que você vai ficar”, disse uma empregadora a uma cuidadora de idosos semana passada no Rio de Janeiro, tentando obrigá-la a permanecer na residência por dois meses. Em tempos de pandemia de coronavírus, patrões têm usado a Covid-19 para justificar abusos. 

A trabalhadora foi orientada pelo Sindicato de Trabalhadores Domésticos de Nova Iguaçu (Região Metropolitana do estado) a não pedir demissão nem assinar qualquer papel. A entidade afirma que a profissional inclusive pode pedir uma rescisão indireta de contrato, justificando ameaça de cárcere privado.

“As cuidadoras são as que mais estão sofrendo. Estão sendo escravizadas. Há filhos que nem iam ver os pais e agora largam cuidadoras na casa, sem poder sair”, diz Zenilda Ruiz, assessora jurídica do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas do Município de São Paulo. Ela conta que atendeu a uma cuidadora que está sem ir a sua casa há 38 dias, mesmo com filhos pequenos.

A presidente do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas do município de São Paulo, Silvia Maria da Silva Santos, afirma que parte de cuidadoras e diaristas a maioria das denúncias de abusos após o início da quarentena na cidade: “As cuidadoras estão ficando sobrecarregadas. Além das ameaças, empregadores acabam pedindo para fazer o jantar e outras atividades, sem ganhos a mais por isso”. 

Quem não enfrenta abusos, passa por mudanças na rotina por causa do coronavírus. Equipamentos de proteção individual, como luvas, máscara e jaleco, mais associados a profissionais de saúde, agora fazem parte do dia a dia de Marlene Adão Tomaz. Quando chega à casa de uma idosa de 92 anos, para dar banho e trocar curativos, ela lava as mãos, deixa os calçados perto da porta de entrada, troca de roupas, coloca os equipamentos e começa a trabalhar. 

Marlene pega três ônibus para chegar a esta residência, na Zona Sul do Rio de Janeiro, e à outra, na Zona Oeste, onde cuida de uma idosa de 82 anos. Em meio à pandemia de coronavírus e ao isolamento social em boa parte do país, a cuidadora tem conseguido chegar aos seus destinos, ao contrário de várias colegas que, com as restrições de mobilidade, chegaram a ser barradas em estações de trem do Rio por não conseguirem apresentar um documento que provasse seu vínculo empregatício. Com funções que transitam entre as de enfermeiras e empregadas domésticas, estas profissionais sempre tiveram que lidar com informalidade laboral, cargas de trabalho exaustivas e rotinas estressantes.    

[+] Leia também: Enfermeiras na linha de frente contra o coronavírus

Em trabalhos anteriores, Marlene foi vítima de abusos semelhantes aos enfrentados por trabalhadoras domésticas:


“Na casa de um dos idosos, eu não tinha alimentação. Precisava levar a marmita, mas a filha dele não me deixava colocar na geladeira. Como almoçava muito tarde, às vezes a comida azedava”. 

“É cansativo, é estressante. Eu tinha muita insônia. Ia dormir tarde, acordava 3h da manhã e ia trabalhar sem ter dormido. Acho que estava precisando de um tratamento psicológico. São muitos pacientes com debilidades e doenças graves. É muita coisa que cansa a mente da gente”, diz Marlene, sobre sua saúde nos tempos em que cuidava de vários pacientes durante a semana.

Aumento de idosos e profissão em alta

Em 2017, o extinto Ministério do Trabalho mostrou que havia 34.051 cuidadores de idosos no país, um aumento de 690% na comparação com 2004, quando eles eram 4.313. A “Pesquisa para uma Política Nacional do Cuidado”, divulgada pelo DataSenado em dezembro do ano passado, afirma, contudo, que não existem estimativas confiáveis do número de cuidadores de pessoas com doenças raras e com deficiência, grupo que também necessita destes profissionais.

[+] Leia também: Maioria entre informais, mulheres têm lugar central na inédita renda emergencial

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Assim como enfermeiras e domésticas, a classe é predominantemente formada por mulheres. Entre os 1.153 profissionais cadastrados pela Associação Brasileira dos Empregadores de Cuidadores de Idosos (Abeci), 85% são mulheres e 15% são homens. Segundo a Associação dos Cuidadores de Idosos da Região Metropolitana de São Paulo (Acirmesp), nos cursos de capacitação acompanhados pela instituição, salas de aula possuem, em média, 27 mulheres em um total de 30 alunos.

No final do ano passado, o país possuía 34 milhões de pessoas com 60 anos ou mais (16,2% da população), justamente o grupo de maior risco durante a pandemia de coronavírus, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD) do IBGE. O órgão estima ainda que, em 2060, o percentual de brasileiros com 65 anos ou mais chegará a um quarto da população. De acordo com o DataSenado, 41% dos brasileiros conhecem alguém que precisa da ajuda de um parente ou cuidador para realizar atividades do dia a dia, como comer, tomar banho ou trocar de roupas. 

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Dúvida, angústia e queda nas recomendações

Cristina Alves, diretora-superintendente da Acirmesp, conta que a pandemia de coronavírus causou outras mudanças no dia a dia das profissionais, como a dispensa por familiares que preferem eles mesmos cuidar de idosos e pessoas com deficiência.

“As cuidadoras estão em um momento de dúvida e angústia. Aquelas que não têm filhos, às vezes podem ficar mais tempo na casa do idoso e até dormir, se houver condições para isso. Mas esta decisão tem que ser da própria cuidadora. E a pessoa não pode trabalhar 24h. Ela precisa de um período de descanso”, alerta.  

Adriano Machado, presidente da Abeci, afirma que desde o dia 13 de março a recomendação de profissionais a familiares caiu a quase zero, enquanto aumentaram a tensão e as dúvidas das cuidadoras, a maioria delas sobre procedimentos de higiene no trabalho. “Há muitas profissionais que não queriam trabalhar. Temos ainda famílias que não querem cuidadoras e outras famílias propondo que eles durmam nas casas dos pacientes.”

Vulnerabilidade trabalhista

Em 2019, o Senado aprovou o projeto de lei 1385/2007, que regulamentava a profissão. No entanto, o texto foi vetado pelo presidente Jair Bolsonaro, com a alegação de que, ao criar condicionantes para a profissão, o texto restringiria o livre exercício profissional, garantido pela Constituição. Entre as determinações do projeto, a obrigação de que a cuidadora tivesse ensino fundamental completo e curso de qualificação na área.

Sem a regulamentação da categoria, a classe fica em um limbo legal e, vezes responde às regras determinadas pela PEC das Domésticas, vezes pelas normas gerais de trabalho (quando a profissional é celetista). Há ainda as que são cooperativadas e as microempreendedoras individuais (MEIs).  

[+] Leia também: Trabalhadoras informais temem não ter como alimentar os filhos em crise do coronavírus

No entanto, a informalidade total é corriqueira. Em um dos trabalhos, Marlene Adão é contratada por uma empresa. Celetista? “Praticamente não tenho vínculo nenhum! A gente só tem vínculo quando querem reclamar alguma coisa, mas na hora do direito não tem nada. Eles não assinam carteira, nem pagam FGTS. Eu pago meu INSS como autônoma”, ela explica. No outro trabalho, ela divide os rendimentos com outra cuidadora, que fica na casa da idosa na maior parte do tempo. 

A advogada Clarissa Franco, especializada em Direito Médico e da Saúde em Brasília (DF), afirma que a maioria das profissionais ganha por diária. “A rotatividade barateia a contratação. Ninguém quer comprometimento com as leis trabalhistas. Após a contratação, existe ainda uma exploração muito grande pelos tomadores de serviço, com desvios de função e abusos”, ela diz. “Não é incomum que cuidadoras sejam obrigadas a executar tarefas como cozinhar e limpar a casa. Há também muitos casos de assédio sexual”, completa. 

Ela afirma que a melhor forma de a profissional se proteger é deixar as funções nitidamente estabelecidas no contrato de trabalho. “Provar os abusos na Justiça é complicado, porque é uma palavra contra a outra. Além do mais, muitas cuidadoras são pessoas humildes que desconhecem os limites de suas atribuições. A melhor saída é especificar quais são essas funções no papel e fazer um contrato com o tomador de serviços, mesmo se a pessoa for autônoma”, aconselha. 

*Maria Martha Bruno editora da Gênero e Número

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Maioria entre informais, mulheres têm lugar central na inédita renda emergencial

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Por três meses, mães chefes de família terão acesso a R$ 1200 para enfrentar crise do coronavírus; medida atende principalmente à população feminina negra, historicamente mais precarizada

Por Giulliana Bianconi*

Haverá renda mínima emergencial de R$ 1.200 na crise do coronavírus para mães trabalhadoras informais que não contam com cônjuge na criação dos filhos. Elas fazem parte de um dos grupos nominalmente contemplados no texto aprovado pela Câmara nesta quinta-feira (26), que propõe a Renda Emergencial Básica por três meses para a população trabalhadora de baixa renda. A medida, acordada entre líderes com chancela do governo, deve ser validada pelo Senado nos próximos dias e tem forte impacto na vida de milhões de mulheres e seus filhos.

Não é a primeira vez que mulheres são reconhecidas como centrais no núcleo familiar por programas de assistência social. “O Bolsa Família já priorizava a mulher como a titular da conta que recebe o valor”, lembra a economista e pesquisadora Cecília Machado, da FGV/EPGE. Elas chegavam a 90% das cadastradas no programa em levantamento de 2018, e 68% eram mulheres negras.

Mas dessa vez há algo de inédito: o valor que trabalhadoras do mercado informal que são mães sem cônjuges terão acesso será igual ao que uma família de dois adultos que estejam no trabalho informal receberá. “Nesse caso, vemos um medida que alcança as mulheres, mas com bastante prioridade em beneficiar crianças, que estarão assistidas por essa renda, mesmo que emergencialmente”, avalia Machado. “Faltam políticas com esse olhar para crianças no Brasil”, atesta a economista.

As chamadas famílias monoparentais que têm a mulher como responsável pelos filhos de até 14 anos são mais de 11 milhões no Brasil, de acordo com dados levantados pelo IBGE em 2018. Representam aproximadamente 5% do total de arranjos domiciliares do país. Esse é o número que inclui todas as famílias desse tipo, sem diferenciar as faixas de renda das mulheres, mas basta jogar luz sobre os números e rapidamente se percebe a desigualdade no acesso à renda entre as famílias monoparentais lideradas por mulheres negras e por mulheres brancas.

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Os dados da série de 2012 a 2018 obtidos pela Gênero e Número junto ao IBGE não deixam dúvida de que a precariedade que atinge parte dessas famílias, embora esteja longe de ser exclusividade daquelas lideradas pelas mulheres negras, é mais crítica para elas.

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Na visualização de dados acima, a categoria “casal com filhos” mantém uma diferença contínua de pelo menos 30 pontos percentuais quando comparada à “família monoparental liderada por mulheres negras” que vive com renda diária por pessoa de menos de US$ 5,50 – valor que configura estar abaixo da linha da pobreza.

Se, de acordo com os dados estampados acima, a porcentagem de famílias monoparentais formadas por uma mulher negra e seus filhos que vive com até  US$ 5,50 por dia caiu nos últimos dois anos analisados, é importante destacar que não necessariamente elas passaram a viver com mais. O mesmo levantamento do IBGE mostra que aumentou o número desse mesmo tipo de família vivendo abaixo da linha da extrema pobreza. Conforme os dados, em 2012 eram 19% do total de famílias monoparentais lideradas por uma mulher negra nesse grupo – que vive com até US$ 1,90 por pessoa por dia. Em 2018, esse número chegou a 23%.

Acesso à Renda Mínima Emergencial

A aprovação da Renda Emergencial chega num momento em que ainda não se sabe o tamanho da crise que a pandemia causará no sistema de saúde e na economia, mas evidências de que um cenário caótico se aproxima não faltam. Desde o início de março até aqui, com o aumento diário de registros de internamentos e mortes por coronavírus, a base da pirâmide social tem sido pressionada, e o empresariado já reclama da desaceleração do mercado. A extrema vulnerabilidade é dos trabalhadores informais de baixa renda, que não têm benefícios garantidos por empregadores e vivem com pouco – são, em sua maioria, mulheres. Mesmo aquelas que tinham renda antes da pandemia agora temem não ter como alimentar os filhos.

Não significa que os trabalhadores formais estão a salvo, mas no momento a atenção é para o grupo historicamente mais vulnerável. “Não só os informais, mas todos os mais pobres estão vulneráveis. Os arranjos de trabalho no Brasil são muito precários. Não é porque a pessoa tem um trabalho formal que ela está melhor. Em muitas casas, a renda de todo mundo complementa a renda de todo mundo. É ruim excluir os celetistas mais pobres também”, pondera a pesquisadora Tatiana Roque, defensora da proposta de renda universal e uma das representantes da sociedade civil que estiveram fortemente engajadas na defesa da renda emergencial. À reportagem, afirmou estar recebendo muitas mensagens pelas redes sociais de trabalhadores celetistas que relatam suas dificuldades e perguntam se receberão o auxílio.

Impossibilidade de acumular benefícios

As mulheres que se encaixam no perfil de beneficiárias vão ter acesso ao valor de R$ 1200 desde que não tenham outro tipo de benefício, como o Bolsa Família. Podem optar por suspender um dos benefícios e manter o mais alto durante os três meses em que a renda emergencial será transferida aos cidadãos. Para recebê-lo, precisam estar no Cadastro Único, do Ministério da Cidadania, em que atualmente mulheres já são maioria entre os cadastrados: elas são 41,7 milhões, enquanto os homens são 32,3 milhões. Não significa que todos recebem algum benefício no momento.

A política, mostram os indicadores, é uma conquista social para as mulheres, que têm a presença massiva como cuidadoras, chefes de lares, mesmo quando não chefes de família responsável por prover. Mas na renda emergencial aprovada na crise do coronavírus, elas receberão a renda temporária por serem as chefes provedoras dos arranjos familiares, mesmo que muitas vezes esse lugar não seja de empoderamento, e sim de precariedade. “Quando a mulher tem um filho, dois ou mais e o pai da criança não assume, isso leva a mulher que já está na precariedade a uma condição de maior pobreza, é isso também que chamamos de feminilização da pobreza”, explica o demógrafo José Eustáquio Alves. Para ele, o enfrentamento às desigualdade precisa encontrar um meio termo entre a busca pelo pleno emprego e a assistência social. “Mas nesse momento de uma crise como essa é muito importante que as mulheres mães tenham acesso a essa renda, que sem dúvida é de um valor expressivo para a maioria das beneficiárias”, avalia Alves. 

A ala de esquerda da oposição ao governo, que vem refutando medidas de enfrentamento à crise que não atendam aos grupos mais vulneráveis, comemorou a medida, que reflete articulação da sociedade civil e dos partidos a favor da transferência de renda. “É uma grande conquista nesse momento em que o presidente [Jair Bolsonaro] tentou ignorar a crise dizendo às pessoas para saírem às ruas, mas só foi possível porque há um trabalho conjunto sendo realizado na Câmara para enfrentarmos esse momento”, afirmou a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP). Para a deputada Tabata Amaral (PDT-SP), não seria possível “deixar pra trás” as mães solteiras, e mecanismos como esse que auxiliam a população mais vulnerável “atendem ao Brasil real”, diz. “É também um reforço extra para que a gente possa continuar dizendo que o isolamento é, sim, a melhor política, tanto para a gente preservar vidas, que é o fundamental, mas também para o nosso desenvolvimento econômico”, avalia a deputada.

*Giulliana Bianconi é diretora da Gênero e Número.

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Trabalhadoras informais temem não ter como alimentar os filhos em crise do coronavírus

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Maioria em trabalhos informais, mulheres perdem renda e ainda não têm acesso a benefício anunciado pelo governo federal; confira a segunda matéria da cobertura conjunta com a Revista AzMina sobre a pandemia de coronavírus

Por Helena Bertho e Flavia Bozza Martins* 

“Sou diarista, gente, e devido à crise do coronavírus, próxima semana qualquer kitnet no bairro por R$ 110,00”. Esse foi o primeiro post de Jennifer Monah, 30 anos, em um grupo no Facebook de um bairro de classe média de São Paulo. No dia seguinte, nova postagem. “Gente, sei que todo cuidado é pouco com o coronavírus. Mas tem muita mulher sozinha que sustenta as crianças e a casa desse dinheiro. Eu tô num mato sem cachorro (…) Trabalho de máscara, luva, o que for preciso.” 

Sem estabilidade, sem possibilidade de trabalhar de casa, sem direitos trabalhistas e sem benefícios do governo, Jennifer é o retrato de como as trabalhadoras informais estão sendo afetadas pela pandemia do coronavírus (Covid-19) no Brasil. 

Jennifer, mulher negra, moradora de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, é mãe solo de quatro filhos (entre dois e 16 anos). O pai das crianças não tem emprego formal e paga cerca de 300 reais por mês de pensão. É com seu trabalho de diarista que Jennifer garante a maior parte do sustento da casa. 

Assim que o governo federal anunciou o voucher de 200 reais para trabalhadores informais, Jennifer saiu de casa para solicitar o seu. Ao chegar no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) mais perto de sua casa, descobriu que o valor ainda não estava disponível. “Eles me informaram que isso só vai ser liberado se a pandemia continuar. E daí vai ter que fazer agendamento do cadastro por telefone. Os CRAS vão fechar”, conta ela, questionando a efetividade da medida. 

A reportagem procurou o Ministério da Economia, que informou que os prazos e processos para liberação do dinheiro ainda dependem de ato normativo, que será enviado ao Congresso Nacional.

Questão de raça e gênero

O trabalho informal é uma questão de raça e gênero no Brasil: 47,8% das mulheres negras têm trabalho informal, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE. “O recorte adicional por sexo nas atividades econômicas revela que a participação das mulheres no trabalho informal é superior à dos homens para a maior parte dos grupos de atividade econômica”, concluem os autores da pesquisa, que faz uma análise das condições de vida dos brasileiros.

Elas são também a maioria em profissões de serviço que são diretamente afetadas pelo isolamento social: trabalhadoras domésticas (categoria em que 73% não têm carteira assinada, segundo o IBGE), manicures, massagistas, trabalhadoras sexuais, entre outras.

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“Sob qualquer perspectiva que a gente olhe, a tendência é que o impacto seja maior sobre para as mulheres”, afirma Marilane Teixeira, doutora em desenvolvimento econômico e gênero pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para ela, as mulheres serão mais atingidas pelo impacto direto no trabalho informal, além dos impactos econômicos indiretos causados pelos cuidados com crianças e doentes. Elas serão também afetadas a longo prazo, pelo possível aumento no desemprego e inflação.

Informalidade e falta de trabalho

“Quando falamos em mulheres no Brasil, é uma parcela muito pequena que está em casa, trabalhando à distância. Há um número muito grande que não tem esta possibilidade. Para quem é informal, deixar de ir para o trabalho é deixa de ganhar”, diz Regina Madalozzo, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero do Centro de Estudos em Negócio do Insper. 

É o caso da ambulante Maria de Fátima Lopes, 53 anos, que vende tapiocas na saída do Metrô Santa Cecília, região central de São Paulo. Apesar da queda do movimento pela metade na última semana, ela seguiu indo para o ponto com seu carrinho. “Logo fica pior que cemitério, daí eu vou ficar em casa. Fazer o quê?”, falou ela no fim da semana passada. Agora, parou por falta de movimento.

Além de diminuir a circulação de pessoas nas ruas, as medidas de prevenção contra o coronavírus têm reduzido a contratação de serviços pessoais. A manicure Deise Cristina, 36 anos, aluga um espaço em um salão de beleza, onde oferece seus serviços. Na semana passada, a procura já caiu em mais da metade e, agora que o salão não está mais abrindo, ela não sabe como vai pagar as contas. “A mulher é a pessoa mais afetada. A mãe é bem mais preocupada que o pai, é a pessoa que cuida”, diz Denise, que tem dois filhos e vive com o marido que está desempregado. 

Salão de cabeleireiros sem previsão de abrir as portas em São Paulo. Foto: Carol Oms
Salão de cabeleireiros sem previsão de abrir as portas em São Paulo. Foto: Carol Oms

“Temos uma economia muito baseada em comércio de serviços. Quase 70% do PIB está relacionado ao comércio e consumo das famílias. E isso é afetado”, afirma Marilane Teixeira. Ela destaca que, além da perda de renda, os profissionais informais não têm proteção social. “Temos quase 25 milhões de pessoas que trabalham por conta própria. Uma porcentagem alta das mulheres negras não contribuem com o INSS. Elas vão sofrer com o vírus e com a condição de não ter renda”, diz a economista da Unicamp. 

Para profissões não regulamentadas, como a das profissionais do sexo, a situação ainda é mais extrema. “Esse é o grande problema de não ter o trabalho sexual regulamentado. Em um momento de pandemia, quando as pessoas têm que deixar de trabalhar, ficamos de fora de qualquer benefício, e nos resta o desespero”, diz Santuzza Alves, coordenadora do Coletivo Rebu de Trabalhadoras Sexuais, Cis, Trans e Travestis. Segundo ela, o número de clientes caiu 70% desde que a crise começou. Ela conta que a Prefeitura de Belo Horizonte, onde vive, decretou o fechamento das boates, casas de massagem e estabelecimentos em geral onde elas trabalham, por medida sanitária.

Exposição a riscos

Para quem ficar em casa e não trabalhar não é uma opção, a exposição ao coronavírus é maior e nem todas têm a chance de se proteger. A primeira morte por coronavírus no Rio de Janeiro foi justamente de uma trabalhadora doméstica. Com 63 anos, ela contraiu o vírus da patroa, que esteve na Itália e não avisou que estava sob suspeita da doença. 

“Nós teremos que fazer quarentena, isso é fato. Mas enquanto as medidas não são extremas, tentamos fazer o máximo de reserva financeira que der, e acabamos nos colocando em risco. Ficamos entre correr risco ou não comer e pagar as contas”, diz Santuzza Alves. 

Seja por desinformação ou por necessidade, a maior parte das trabalhadoras entrevistadas disseram que o contágio do vírus não é sua maior preocupação e algumas acreditam se tratar de um exagero da mídia. “Eu não tenho medo de pegar, não. Eu tenho fé em Deus, será o que Deus quiser”, disse a vendedora de tapioca Maria de Fátima. 

A diarista Jennifer Monah disse que começou a entender a gravidade da doença na última semana, mas que não está com medo de pegar a doença. “Medo do contágio eu não tenho. Tenho mais medo de não pagar as contas, de meus filhos ficarem no escuro, não terem refeição. Isso é minha preocupação.”

Sem apoio do governo

A maior parte das medidas anunciadas pelo governo federal para lidar com os impactos do coronavírus na economia foi direcionada a empresas e bancos. 

“Quem é que mais tem que se salvaguardar nesse momento? A classe trabalhadora, que são as pessoas mais vulneráveis”, afirma a economista Marilane Teixeira, que critica as medidas tomadas pelo governo até o momento, inclusive o voucher para trabalhadores informais. Na sua opinião, o ideal seria o governo oferecer uma renda no valor de um salário mínimo para informais e desempregados enquanto durar a crise. 

Alguns governos estaduais têm tomado medidas para amenizar os impactos da crise, como em São Paulo e no Ceará, que suspenderam a cobrança da água para famílias de baixa renda. A economista da Unicamp avalia essas medidas como importantes, mas que não resolvem o problema se não houver uma renda mínima.

Em Portugal, os trabalhadores autônomos vão receber uma ajuda financeira de 438 euros por mês e o governo também vai conceder incentivos a empresas que mantiverem o salário dos trabalhadores que precisarem ficar em casa para cuidar dos filhos. Outros  governos europeus estão indicando que adotarão medidas parecidas.

Se as contas não fecharem, negocie

O maior medo das mulheres entrevistadas é faltar comida para os filhos, seguido do receio de não conseguir pagar o aluguel e ser despejada. Para quem tem contrato, o despejo pode ser evitado. “O proprietário teria que entrar com ação para a pessoa sair e, nesse caso, existe argumento para defesa”, explica a advogada Bruna Ksumoto, professora de direito civil na pós-graduação da PUC São Paulo. 

Ela orienta as mulheres a priorizarem o essencial, como compra de alimentos, luz e água, e negociarem o que não der para pagar. “Liga para o locatário, liga pros bancos e informa a situação. Tente negociar”. 

O governo federal suspendeu temporariamente as cobranças de dívidas para quem tem débitos com a União. Alguns governos estaduais, como Rio e São Paulo, seguiram o exemplo e fizeram o mesmo. Bancos também estão adiando cobrança de dívidas.

O que você pode fazer para ajudar

“Nesse momento, e eu falo menos como economista e mais como ser humano, a gente vai ter que tomar conta das outras pessoas”, diz Marilane Teixeira. Ela reforça a necessidade de ações do governo e empresas, mas acredita que é preciso que as pessoas também tenham atitudes solidárias para diminuir o impacto econômico na vida dessas mulheres. 

Algumas sugestões de como  ajudar mulheres em situação mais vulnerável:

  • Dispense sua diarista ou empregada doméstica, para que ela não se exponha ao vírus, mas pague pelos dias de trabalho dispensados, se você tiver condições; 
  • Faça o mesmo com outras profissionais que prestam serviço normalmente para você, como manicures, professoras, terapeutas, etc;
  • Procure orientar sobre os benefícios disponibilizados pelo governo, informe e ajude nos processos; 
  • Se puder fazer doações em dinheiro, faça;
  • Se puder doar comida, doe;
  • Pressione o governo por políticas contra a crise focadas nas populações vulneráveis. Atitudes individuais não são suficientes. Você pode fazer isso via abaixo-assinados, denúncias, pressão nas redes sociais e e-mails para os políticos eleitos

*Helena Bertho é repórter da Revista AzMina e Flávia Bozza Martins é analista de dados da Gênero e Número

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Mesmo com vacina, sarampo tem novo surto e já causou três mortes em 2020 no Brasil

Campanha de vacinação terminou na semana passada, mas não atingiu a meta em diversos estados

Da Redação Gênero e Número

Uma menina de um ano, morta no primeiro dia de 2020, em São Paulo. Um menino de oito meses, morto no dia 6 de janeiro, no Rio de Janeiro. Uma outro menina, de um ano e meio, morta no dia 26 de janeiro, no Pará. Estes são os casos de morte por sarampo registrados no Brasil em 2020. Diferentemente do novo Covid-19, a doença possui vacina e suas doses estão disponíveis em todas as unidades de saúde. 

Até o dia 8 de fevereiro, de acordo com o boletim epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde, foram confirmados 338 casos. As suspeitas chegaram a 2.184, ou 53 por dia, e mais de 1.500 permanecem em investigação. São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná são os principais estados com registros dos casos confirmados. 

Ainda de acordo com a SVS, a incidência de sarampo por faixa etária é de 1,58 a cada 100 mil habitantes entre 20 e 29 anos. Entre crianças com menos de 12 meses completos, esse índice é de 11,6 a cada 100 mil habitantes. 

Para tentar frear a circulação da doença, o Ministério da Saúde investe em campanhas nacionais de vacinação. A última terminou no dia 13 de março, em meio à pandemia do coronavírus. No Rio de Janeiro, 1/3 da meta foi atingida (1 milhão de pessoas) no período de campanha, mas as vacinas contra sarampo ficam disponíveis em todas as unidades de saúde durante o ano todo. Assim também no Acre, Amazonas, Bahia e Distrito Federal, conforme informaram as secretarias de saúde dessas unidades federativas.

A PNAD Contínua 2018, do IBGE, aponta que a taxa de mulheres que cuidam de alguém dentro de casa é de 37%, enquanto para homens essa taxa é de 26%. Por isso, uma doença que afeta mais as crianças também afeta mais as mulheres. São elas as responsáveis pelo cuidado, e são elas que se expõem mais à doença. 

Para André Ricardo Araújo da Silva, médico infectologista e professor de Medicina da Universidade Federal Fluminense, o impacto do sarampo nas rotinas familiares pode ser muito maior que o da Covid-19.

“O sarampo tem transmissão aérea, enquanto a da Covid-19 é principalmente pelo contato. Se você frequenta qualquer lugar com alguém infectado, a chance de contaminação é muito maior. Isso impacta mais as famílias, porque sequer podem sair de casa, se conviveram com uma criança ou pessoa contaminada, por até cinco dias depois do fim dos sintomas. O transtorno é muito maior que o causado pelo coronavírus, em termos de isolamento. Se a pessoa infectada sair do quarto, já pode contaminar todos os moradores”, avalia.

Vacina como solução

Se para a Covid-19 as medidas de prevenção amplamente divulgadas são higienização das mãos e não levá-las ao rosto, além de evitar aglomerações, para sarampo a prevenção é feita com uma vacina. Silva avalia que o que trouxe à tona novos casos e óbitos de sarampo para o Brasil foram, especialmente, três fatores: diminuição da cobertura vacinal para essa doença, aumento do fluxo migratório de países que não eliminaram completamente a doença e, por último — mas ainda difícil de quantificar — o movimento antivacina.

Para evitar a circulação da doença, é recomendada a vacinação. Em tempos de quarentena e de circulação reduzida, é recomendado, principalmente, que crianças não tenham contato com pessoas que ainda não tomaram ou não lembram de ter tomado a vacina contra o sarampo. 

A doença se manifesta com febre, manchas vermelhas no rosto, que posteriormente se espalham pelo corpo, além de tosse e mal-estar. Em crianças, ela tem efeito mais grave por conta dos danos respiratórios causados. 

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Enfermeiras na linha de frente contra o coronavírus

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Jornadas exaustivas, falta de protocolo nas unidades de saúde e de equipamentos de proteção estão entre os principais problemas de uma classe formada por 85% de mulheres no Brasil; confira a primeira reportagem da cobertura especial da Gênero e Número com a Revista AzMina

Por Leticia Ferreira e Lola Ferreira*

Nos treinamentos que recebeu nos últimos dias sobre o atendimento a pacientes com suspeita de coronavírus, uma enfermeira do Hospital São Paulo (da Universidade Federal de São Paulo, Unifesp) foi informada de que um dos equipamentos de proteção, a máscara N95 (cujo filtro bloqueia até 95% das partículas em suspensão), terá uso restrito. “Fomos orientadas a utilizar a máscara por sete dias, o que eu achei um absurdo. Segundo o fabricante, é por período. Vamos ter que guardar a nossa máscara e trocar a cada semana. Se não tiver nenhum dano, a gente vai permanecer com ela”, diz a enfermeira, cuja identidade será preservada pela reportagem.

A validade dessa máscara, de maior proteção que a cirúrgica, varia de acordo com cada situação e cada fabricante. Ela deve ser guardada em sacos de papel ou de plástico (desde que furados) e, dependendo da condição em que seja usada, deve ser descartada imediatamente, segundo um dos fabricantes. Com tantas variáveis em uma situação de pandemia e quase 2 milhões de profissionais de enfermagem distribuídos pelo país, as dúvidas sobre protocolos são um dos problemas enfrentados pela classe no Brasil. 

No país, 84,7% dos auxiliares e técnicos de enfermagem são mulheres. Entre os profissionais com ensino superior, elas são 86,2%, segundo a pesquisa “Pesquisa Perfil da Enfermagem” do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

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O Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro denunciou esta semana a falta de um “protocolo de orientação, capaz de disciplinar a utilização e o descarte dos equipamentos”, com exceção feita a um hospital da rede federal, que já possui as normas. A entidade também afirma que faltam máscaras cirúrgicas e N95, álcool em gel e até mesmo sabão e papel. “Enfermeiros e trabalhadores da saúde estão com déficit de equipamento de proteção individual (EPI). Precisamos de um protocolo do poder público sobre o que vai ser feito nas unidades básicas e nas redes de emergência”, diz Líbia Bellusci, vice-presidente do sindicato.    

“O que dá medo é a nossa saturação mental e física. Nós já trabalhamos em um ambiente bem estressante e, com uma doença tão perigosa, a insegurança também aumenta. A gente não sabe o que vem por aí”, desabafa a enfermeira, que trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Paulo. Procurada, a unidade informou que “todo o corpo de saúde do Hospital São Paulo está devidamente orientado e segue o protocolo de atendimento determinado pelo Ministério da Saúde”.

Com o aumento da demanda, a enfermeira conta que a orientação é reservar uma área da UTI para pacientes com coronavírus e selecionar enfermeiras só para esses casos, com o objetivo de diminuir a possibilidade de transmissão da doença entre outros pacientes do hospital. 

“Inevitavelmente a categoria estará na linha de frente, em contato 24 horas com casos suspeitos e confirmados. Nós estamos preocupados e buscando preservar ao máximo os profissionais”, afirma Walkirio Almeida, coordenador do Comitê de Gestão da Crise do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). 

Para o Conselho, as principais preocupações com os profissionais de enfermagem são os EPIs, a capacitação para os protocolos determinados pelo Ministério da Saúde e garantir que eles estão preparados para usar os equipamentos. “Não adianta oferecer equipamentos de proteção e não preparar os profissionais para usá-los corretamente”, diz Almeida. O conselho vai permanecer com sua sede e conselhos regionais abertos para realizar fiscalizações e atender as demandas dos profissionais.

Ameaça de paralisação em Pernambuco

Em Pernambuco, enfermeiros que trabalham em unidades de saúde da rede pública podem entrar em greve a partir da próxima segunda-feira (23). De acordo com o sindicato da classe no estado, faltam de equipamentos básicos de proteção, como máscaras e aventais, além de insumos como álcool em gel e sabão. 

“Infelizmente é comum faltar material: luva, máscara, seringa, agulha. Só que agora, além da insatisfação, nós corremos risco de vida”, alerta Ludmila Outtes, presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Pernambuco (SEEPE). 

“Precisamos proteger a nossa vida também. Além disso, é preciso controlar a disseminação. Como a gente atende vários pacientes ao dia, se eu pegar o vírus, vou transmitir para várias pessoas que eu atendo”, completa. 

A Secretaria de Saúde do estado afirma que já ordenou a compra emergencial de equipamentos de proteção individual e diz que está orientando os profissionais sobre o seu uso. No Rio de Janeiro, a secretaria do estado anunciou nesta quarta-feira (18) a compra de 1,5 milhão de máscaras cirúrgicas, 300 mil óculos de proteção e 600 mil aventais. 

Para a diretora do sindicato dos enfermeiros do estado da Bahia, Tatiane Araújo, a questão das condições profissionais para as enfermeiras inclui, além da estrutura e equipamentos, a garantia de horas de descanso. “Uma profissional cansada fica mais propensa a cometer um erro. As unidades de saúde têm que garantir as condições de trabalho. Tudo que a Organização Mundial da Saúde vem divulgando tem que ser cumprido.” 

Um dos receios da enfermeira entrevistada pela reportagem no Hospital São Paulo é o aumento das dificuldades que as profissionais já sentem na rotina de trabalho, mesmo sem a demanda de pacientes com coronavírus. “Em hospital público sempre há escassez de insumos. Se já está assim, imagine quando começar mesmo o surto de vez. O que esperar?”, questiona. 

Entre as enfermeiras, as condições de trabalho (como falta de equipamentos adequados) representam 46,8% dos motivos que causam a precarização do trabalho da categoria. Para técnicos e auxiliares de enfermagem, o ritmo e pressão da atividade responde por 51,2%, segundo a pesquisa “Precarização do trabalho de enfermeiras, técnicas e auxiliares de Enfermagem nos hospitais públicos”, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

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Tatiane Araújo, também professora adjunta da Escola de Enfermagem da UFBA e uma das autoras do estudo, lembra que o serviço público de saúde será o principal responsável pelo suporte aos casos da epidemia, já que atende a 75% dos brasileiros. “A pandemia vai servir para jogar luz em alguns problemas que já existem: a falta de EPIs ou EPIs inadequados, além das condições de trabalho insalubres. Há serviços de saúde em que a ventilação e até o piso são inadequados”, completa.

O Conselho Federal de Enfermagem indica que para cada estágio de risco em uma unidade hospitalar, o tipo de equipamento de proteção é diferente. Segundo a cartilha do Protocolo de Manejo Clínico para o Novo Coronavírus, do Ministério da Saúde, profissionais responsáveis pelo atendimento de casos suspeitos e confirmados deverão higienizar as mãos com álcool com frequência, utilizar óculos de proteção ou protetor facial, máscara, avental impermeável de mangas longas e luva de procedimento.

Enfermeira, uma profissão “maternal”?

Tatiane Araújo também destaca como a diferença imposta pelos papéis desempenhados pelos gêneros na sociedade impacta as profissionais da enfermagem: “Infelizmente, a questão do gênero influencia no reconhecimento, porque o trabalho da mulher é visto com menos valor que o do homem. Há ainda aquele ideal culturalmente construído de que a mulher nasceu para cuidar, para ser mãe, para dar carinho. No Dia Internacional da Enfermeira, você vê homenagens associando a enfermeira ao anjo, amor, caridade, mas nunca à profissão, ao trabalho, à qualidade técnica”. 

Ela ressalta que as famílias destas profissionais — inclusive os filhos que estão em casa, sem aulas — também são colocadas em risco e lembra a tradicional imagem de emergências lotadas no Sistema Único de Saúde em grandes cidades, com carência de profissionais para cuidar de tantos pacientes: “As trabalhadoras muitas vezes não têm condições de sequer parar para lavar as mãos. Os serviços, infelizmente, entendem que uma economia que eles podem fazer é cortando pessoal”. 

A resolução 543/2017 do Cofen determina o número adequado de profissionais para um atendimento de qualidade. Em UTIs, por exemplo, é necessário um profissional de enfermagem para cada paciente. A infecção de profissionais da saúde pelo novo coronavírus também aumenta o risco de redução de profissionais, tendo em vista que eles precisam entrar em quarentena quando contaminados.

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Problemas também no exterior

Na semana passada, viralizou um post da enfermeira italiana Alessia Bonari, com um relato de sua rotina de trabalho exaustiva em meio à crise causada pelo coronavírus na cidade de Milão. “Estou fisicamente cansada porque os dispositivos de proteção machucam, o jaleco me faz suar e, uma vez vestida, não posso mais ir ao banheiro ou beber água por seis horas”, contou a enfermeira, com o rosto machucado pelo equipamento de proteção. 

Mas Tatiane Araújo destaca uma diferença importante do sistema de saúde italiano e brasileiro, que por um lado favorece as profissionais nacionais, mas por outro as expõe mais do que no país europeu. “Na Itália o sistema de saúde é centralizado no médico. As enfermeiras têm pouquíssima possibilidade de atuação profissional. Aqui, estão envolvidas na vigilância, na estratégia de saúde da família, no rastreamento de casos. Elas podem dar as primeiras informações, os primeiros cuidados. Isso as coloca linhas de frente, então estão mais expostas ao coronavírus e a qualquer doença.”

Tatiane Araújo: "Há serviços de saúde em que a ventilação e até o piso são inadequados" | Foto: Cofen
Tatiane Araújo: “Há serviços de saúde em que a ventilação e até o piso são inadequados” | Foto: Cofen

Nos Estados Unidos, Bonnie Castillo, diretora do maior sindicato nacional da categoria, reclamou esta semana da falta de condições adequadas de trabalho. “Enfermeiros estão trabalhando com proteções inadequadas — de respiradores a máscaras, passando por uniformes e aventais”. Ela afirma que alguns estão recebendo apenas máscaras cirúrgicas, aventais de papel e um par de luvas: “Isso não vai proteger o profissional da enfermagem nem ninguém”. O país já computou mais de 7 mil casos e quase 100 mortes.

Na China, as condições de trabalho chegaram a níveis extremos. Enfermeiras do distrito de Wuhan, epicentro do coronavírus no país, cortaram os cabelos e rasparam a cabeça por falta de suprimentos e equipamentos de proteção. Para continuar trabalhando, elas usaram fraldas para adultos, por não ter tempo de ir ao banheiro e tomaram pílulas anticoncepcionais para retardar seus ciclos menstruais, segundo relatos do New York Times

*Letícia Ferreira é repórter da Revista AzMina e Lola Ferreira é repórter da Gênero e Número

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