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Pesquisas

ENTREVISTA: “Derrotar o fascismo é uma das etapas para derrotar o racismo”

No momento em que protestos nos EUA e no Brasil levantam as bandeiras do antirracismo e do antifascismo, Osvaldo José da Silva, que pesquisa o ódio ao negro e suas relações com o fascismo, na PUC-SP, destaca a urgência de uma análise histórica do Brasil para superar os dois problemas     

Por Lola Ferreira*

Depois do assassinato de George Floyd, em Minneapolis, e de João Pedro, em São Gonçalo, Estados Unidos e Brasil tomaram as ruas para denunciar as práticas racistas do Estado e de suas instituições. No Brasil, os protestos foram encampados, para além da bandeira contra o racismo, por pessoas que bradam contra o fascismo, ideologia nascida no século passado e que, para muitos, encontra paralelos no momento atual brasileiro. 

Em entrevista à Gênero e Número, o pesquisador Osvaldo José da Silva analisa as relações entre o fascismo e o racismo e avalia de que forma o Brasil pode avançar no combate aos dois problemas. Da Silva é mestre em Ciências Sociais pela Unesp e membro dos grupos de pesquisa Relações Raciais: Memória, Identidade e Imaginário, da PUC-SP e do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão. 

Ele também é autor do capítulo “Ódio ao negro à sombra do fascismo”, do livro “Sim, o racismo existe”, organizado por Sarita Amaro e Evaldo Ribeiro Oliveira. Doutorando em Ciências Sociais na PUC-SP, atualmente ele pesquisa exatamente esta relação entre “passado e futuro” e como “superar a gênese da sociedade totalitária atual e contribuir para denunciar e anunciar a condição do negro”.

Leia a entrevista completa.

Muito se tem discutido nas redes sociais a estreita relação entre fascismo e racismo. Como esses dois conceitos, de fato, se relacionam?

A luta contra a ascensão do fascismo está intrinsecamente associada à luta contra o racismo. Entretanto, a discussão nas redes e plataformas sociais da questão fascismo/racismo nem sempre é desprovida de ódio e paixões e pouca reflexão. Os registros factuais, documentos, dados antropológicos científicos e testemunhos da historiografia demonstram que um dos grandes momentos do fascismo na modernidade, a partir dos anos 1920 no contexto europeu e depois expandido aos demais continentes, possui como estrutura a dominação de uma elite rentista branca, que se considera a “raça” eleita para oprimir, escravizar, torturar e matar as pessoas de etnias diferentes. É necessário voltarmos às fundamentações da razão e da ciência para demonstrar o quanto absurda, falaciosa, mentirosa, irracional, antipolítica e desumana é a prática necropolítica do Estado brasileiro e das instituições que o apoiam e que caminha para o holocausto contra negros e pobres neste momento no Brasil.

Osvaldo José da Silva é doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP e pesquisa fascismo e racismo | Reprodução: Youtube UNG Universidade
Osvaldo José da Silva é doutorando em Ciências Sociais na PUC-SP e pesquisa fascismo e racismo | Reprodução: Youtube UNG Universidade

De que forma a política institucional tem contribuído para a manutenção do racismo no Brasil, e como isso interfere no surgimento de um estado com tons anti-democráticos?

O negacionismo constitui o principal eixo da política institucional para a manutenção do racismo no Brasil. A negação de que não teria havido tráfico e escravização dos negros para o Brasil a partir do continente africano. A falta de reconhecimento de que este evento histórico produziu a exclusão social do negro e o preconceito racial contra os negros no Brasil faz parte da estratégia do Estado antidemocrático, e que possibilitaria aos cidadãos ter direitos. Também faz parte da estratégia de dominação e poder dos brancos autoritários que, neste momento, ocupam o poder Executivo no Brasil. O mais grave, entretanto, é a destruição do Estado de direitos a partir da desconstrução das instituições que possibilitaram o mínimo de inserção social que os precarizados ensaiavam ter no acesso ao tecido social.

[+] Leia mais: Entrevista: “O coronavírus não tem nada de democrático. Ele tem ‘preferências’, e os negros são um dos grupos preferidos dele”

Povos tradicionais, como quilombolas e indígenas, denunciam há três meses o descaso público com suas questões específicas durante a pandemia. Isso é uma marca importante de ser avaliada nesse contexto?

De fato, a história se repete primeiro como farsa, depois como tragédia; na campanha deste atual governo já era visível que haveria perseguição aos povos das comunidades quilombolas e às comunidades indígenas. O que estamos vivenciando é a mais cruel forma de extermínio desses povos. E não só, o meio ambiente no qual estes povos geram e preservam suas vidas está sendo destruído, há assassinatos de lideranças e interdição de movimentos da sociedade civil organizada que procuram dar apoio, proteção e solidariedade a essas pessoas. O descaso fica mais dramático e acentuado com o cenário de abandono das autoridades políticas frente à pandemia, que pode agravar mais ainda a situação de extermínio dos nossos ancestrais, com total desrespeito à dignidade humana.

[+] Leia mais: ENTREVISTA: “A ‘Casa Grande’ não consegue passar sem a servidão das pessoas negras”

Por que o Brasil adotou tão fortemente a bandeira do antifascismo, em detrimento do antirracismo, que dominou os protestos nos Estados Unidos?

Para muitos cientistas o Brasil vive o cenário da tempestade perfeita de destruição do tecido social: primeiro, a destruição da saúde pública com a desmantelação do SUS como política econômica de privatização da saúde no cenário de pandemia; segundo, o aumento da concentração da renda econômica nas mãos de poucos, agravando ainda mais a situação dos pobres e negros; e terceiro, a consolidação política do Estado fascista autoritário. Os movimentos sociais estão com a bandeira antifascista em uma das mãos, quando necessitam também na outra mão tremular a bandeira antirracista. Neste quadro, estávamos lutando contra o fascismo quando emergiu nos Estados Unidos a experiência da revolta em reação ao assassinato do cidadão negro George Floyd. No Brasil, faz parte da nossa história, desde os tempos imemoriais, a luta contra o racismo e denúncia e combate dos assassinatos de negros. Atualmente, o resgate da cidadania passa pela luta por justiça: justiça antirracista contra o preconceito racial, justiça por liberdade política antifascista e justiça por distribuição equitativa de renda.

Um país livre de ideias fascistas é possível sem analisar o racismo e seus impactos?

Derrotar o fascismo é uma das etapas para derrotar o racismo. O critério de raça para qualificar o ser humano deve ser considerado um critério descartado. Não tem base científica ou antropológica. Os racistas, assim como os fascistas, são pessoas irracionais, alienadas, ignorantes e idiotas no sentido grego do termo (obcecado pela ganância de ganhos e poder isolado). Para construirmos um país livre de ideias fascistas e racistas, é necessário um exame esclarecido de suas origens e apresentar para os iludidos a banalidade do mal causado por crenças e ações totalitárias por parte de pessoas ressentidas consigo próprias.

*Lola Ferreira é repórter da Gênero e Número

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Prefeitas do Brasil têm mais anos de estudo e experiência do que prefeitos, mas governam municípios menores e mais pobres

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Pesquisa realizada pelo Instituto Alziras mostra que 70% das chefes do executivo municipal já ocuparam cargo público e 71% têm ensino superior, mas 91% governam municípios de até 50 mil habitantes

Por Lola Ferreira*

Mais anos de estudo, um bom tempo de experiência em gestões governamentais e muito menos numerosas na liderança das prefeituras em comparação aos homens: esse é o perfil das mulheres que chefiam o Executivo municipal no Brasil. A pesquisa Perfil das Prefeitas do Brasil, realizada pelo Instituto Alziras, traz o retrato das mulheres que conseguem se eleger no país que tem 5.570 municípios, mas somente 649 prefeitas. Os dados mostram que 70% das mulheres que exercem o cargo hoje já acumulavam experiência em cargos públicos não-eletivos, e 71% delas têm ensino superior, contra 50% dos prefeitos.

Em todas as regiões, prefeitas com no mínimo ensino superior completo são maioria. No Norte, Sudeste e Sul, a maioria foi além e tem pós-graduação. Somente 4% de todas as prefeitas do Brasil não têm ensino médio completo, enquanto entre os homens essa taxa é de 18%. A pesquisa aponta que a escolaridade parece influenciar a ocupação de cargos não eletivos ou de confiança antes delas concorreram a um cargo eletivo.

As prefeitas com pós-graduação que antes ocuparam cargos não eletivos na gestão governamental são 80%, e o índice caindo de acordo com a formação delas. Essa taxa é de 65% entre as com ensino superior, 63% entre as com ensino médio e 47% das prefeitas com ensino fundamental completo já ocuparam cargos de confiança.

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A codiretora do Instituto Alziras, Michelle Ferreti, destaca a importância de a pesquisa mostrar que as mulheres conseguem reunir dois pontos importantes para a qualificação de um cargo eletivo: experiência e anos de estudo.

“Não acho que o preparo vem só dos anos de estudo; tem gente que não tem ensino superior mas tem muita experiência. Só que as prefeitas somam as duas coisas: desde a experiência prática, dentro do governo, em cargos públicos, quanto mais anos de estudo, apesar delas serem minoria”, avalia.

Das 649 prefeitas do Brasil, 91% chefiam municípios com até 50 mil habitantes e 71% estão concentradas em municípios de até 20 mil habitantes. A média de PIB per capita dos municípios governados por prefeitas é de R$ 17,8 mil, enquanto os governados por prefeitos é de R$ 19,7 mil.

Daniela de Cássia (PSB/SP) foi eleita duas vezes como prefeita da cidade de Monteiro Lobato, no interior paulista. A partir de sua experiência, De Cássia contou à Gênero e Número que a maior dificuldade para as mulheres que tentam se eleger como prefeitas é o machismo, que opera de diferentes formas.

“Eu tive dificuldade, inclusive, de me filiar aos partidos já existentes na cidade, porque os presidentes eram homens e eu não fui aceita em vários partidos, então eu tive dificuldades desde o primeiro instante. Não temos essa ruptura do machismo, porque ainda está difícil para a mulher”, opina De Cássia.

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Assédio e violência política

Como a prefeita de Monteiro Lobato, 53% das 298 prefeitas ouvidas pela pesquisa do Instituto Alziras disseram já ter sofrido violência ou assédio em sua carreira política pelo simples fato de ser mulher, e 30% delas apontam que esta é a maior dificuldade na carreira. De Cássia relata que durante a sua campanha eleitoral sentiu-se diminuída por ser mulher.

“Sofri boicotes durante a campanha e acho, sim, que foi por ser mulher. A oposição não citava nem meu nome, só chamava de ‘menininha’. Na área rural, os eleitores diziam que eu tinha cara de ‘shopping’, e duvidavam que eu fosse fazer algo por eles, e eu acredito que tudo isso seja ainda por causa da cultura machista em que vivemos”, afirma.

Com recorte de faixa etária, as prefeitas jovens, com menos de 30 anos, têm maior percepção do assédio sofrido enquanto políticas: 91% responderam “sim” à questão. Entre as mulheres de 30 a 40 anos, essa proporção é de 70%. Entre as solteiras, 69% disseram ter sofrido assédio, e entre as casadas 49% declararam à pesquisa ter sofrido assédio.

Chamada de "menininha" pela oposição, prefeita de Monteiro Lobato aponta machismo como dificuldade na eleição de outras mulheres. | Foto: Arquivo pessoal
Chamada de “menininha” pela oposição, prefeita de Monteiro Lobato aponta machismo como dificuldade na eleição de outras mulheres. | Foto: Arquivo pessoal

De Cássia acredita que uma pesquisa feita para preencher a lacuna dos dados referentes às prefeitas irá auxiliar na compreensão por parte do eleitorado de que as mulheres são, sim, capacitadas para ocupar o cargo.

“A gente ter dados, conhecer a história das prefeitas, faz com que a gente tenha uma tomografia do cenário. Porque se a gente não souber onde está o problema, a gente não sabe como resolver”, opina ela, que venceu a última eleição, em 2016, com diferença de 22 votos para o segundo colocado — um homem.

Ferreti corrobora e destaca que este é o principal objetivo da pesquisa. “A nossa intenção é justamente essa: se a gente quer construir estratégias para mudar o país, a gente tem que entender com detalhes o que está acontecendo. A ideia da pesquisa é construir um bom diagnóstico, pensar caminhos com outras redes, organizações e mulheres que já estão nessa luta, e poder fomentar o debate público.”

*Lola Ferreira é repórter da Gênero e Número.

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Maioria da população concorda com paridade de gênero no Legislativo, mas falta de apoio institucional barra mulheres

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Por Lola Ferreira*

As cadeiras do Legislativo deveriam ser igualmente divididas entre homens e mulheres. Isto é o que acreditam 77% dos entrevistados na nova pesquisa Ibope/ONU Mulheres, que conta com parceria do Instituto Patrícia Galvão, divulgada nesta sexta-feira (14/09). De acordo com os resultados, os brasileiros que mais concordam totalmente com esta afirmação são mulheres, pertencentes às classes D e E, moradores do interior e da região Nordeste, com ensino fundamental completo. Foram entrevistadas 2.002 pessoas em 141 municípios brasileiros, entre 16 e 20 de agosto.

Entre os homens, 71% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a afirmação Deveria ser obrigatório que as câmaras de vereadores, assembleias legislativas estaduais e o Congresso Nacional tivessem metade de homens e metade de mulheres. As mulheres que concordam totalmente são 60%, e as que concordam parcialmente são 22%, portanto elas somam 82%, uma diferença considerável, de onze pontos percentuais, na percepção sobre uma possível obrigatoriedade. Os homens que discordam totalmente da divisão igualitária são 14%, quase três vezes o número de pontos percentuais de mulheres que têm a mesma opinião, que são 5%.

Este cenário deveria apontar uma mudança nas próximas eleições, em relação a quem ocupará as cadeiras nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional, mas a pesquisadora Debora Thome, mestre em ciência política pelo IESP/UERJ e coautora do livro Mulheres no Poder: História, Ideia e Indicadores, avalia que há necessidade de analisar os dados não isoladamente, mas junto à estrutura que impede a paridade.

“Várias evidências mostram que as mulheres não teriam problemas para se eleger. Mas para você ter paridade, 40% do Congresso teria que abrir mão da própria cadeira, são eles que votam e eles mesmo não deixam passar [cotas paritárias]. É difícil um legislador votar contra si mesmo”, afirma.

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Thome também analisa como as instituições políticas dificultam a penetração de mulheres no Legislativo. Para ela, é necessário olhar “para dentro do Congresso e dos partidos” e compreender o fenômeno que implica em baixo índice de mulheres eleitas.

“Eleição política tem a ver com partido. Se as instituições políticas não ajudam essa mulher a aparecer, não adianta ter mil mulheres maravilhosas disputando.(…) Uma das coisas é que as pessoas votam em quem conhecem mais, e tem mais homem: você sempre votou naquele e vai continuar votando. E as regras beneficiam os que já estão lá”

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São os jovens que acreditam mais na paridade no Legislativo: 80% dos entrevistados de 16 a 34 anos, concordam totalmente ou em parte que um gênero deve ocupar, no máximo, metade das cadeiras do Legislativo. Em todas as faixas etárias, os que discordam totalmente variam entre 9% e 10% da proporção.

Os entrevistados com ensino superior completo são os que, proporcionalmente, menos concordam totalmente com a afirmação: são 51%, enquanto os que têm a mesma opinião e concluíram o ensino fundamental são 62%. Entre aqueles com ensino superior, 14% discordam totalmente, e esta é a maior proporção quando analisadas as entrevistas por escolaridade.

Os moradores do Nordeste são os que mais concordam totalmente com a afirmação: 62% dos entrevistados na região. O Sul concentra 51% de entrevistados que concordam totalmente, sendo a menor proporção por região. No Sudeste, 10% discordam totalmente da afirmação, e é a maior proporção para esta opinião por região.

*Lola Ferreira é jornalista e colaboradora da Gênero e Número

Este conteúdo faz parte do Observatório Brasil 50-50

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Pesquisa Ibope/ONU Mulheres: acesse o relatório completo

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Entre 16 e 20 de agosto de 2018 foram realizadas 2002 entrevistas em 141 municípios do Brasil pela equipe do Ibope, com apoio da ONU Mulheres e parceria do Instituto Patrícia Galvão.

A pesquisa teve como objetivo levantar informações estratégicas sobre a importância que o Governo Federal deve dar a determinadas demandas da população nos estados e municípios, bem como investigar a opinião dos entrevistados a respeito da maior participação das mulheres na política.

A margem de erro máxima estimada para a pesquisa é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados da amostra/pesquisa.

A estruturação dos dados trabalhou com as seguintes variáveis:
Idade:  16 a 24 anos; 25 a 34 anos; 35 a 44 anos; 45 a 54 anos; 55 anos e mais.
Nível de Instrução:  Até 4ª série do fundamental; 5ª a 8ª série do fundamental ; Ensino médio; Superior.
Regiões:  Norte/ Centro‐Oeste; Nordeste; Sudeste; Sul.
Renda familiar: Mais de 5; Mais de 2 a 5; Mais de 1 a 2; Até 1.                             
Classe Econômica : Classe A/ B; Classe C; Classe D/E.
Raça/cor: Branca; Preta/ Parda; Outras.
Religião: Católica; Evangélica; Outras.
Mulheres na Política: Pouco importante; Importante; Muito importante.

Acesse o relatório completo aqui:

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