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Capital familiar ainda é rota de acesso à política para 1/3 das deputadas estaduais

Entre os deputados homens do RJ, 12% herdaram capital político. Deputadas no mesmo perfil são 12% do total de mulheres. Foto: Lucas Moritz / Alerj

Entre as 121 deputadas estaduais em exercício, 44 iniciaram a carreira política com forte apoio de um familiar e somente duas herdaram capital político de uma mulher; na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, 12% dos deputados estaduais homens receberam capital familiar, enquanto entre as mulheres deputadas este percentual é de 40%

Por Lola Ferreira e Natália Leão*

À direita do espectro político, eleita em estados das regiões Norte e Nordeste, exercendo o primeiro mandato, branca e apadrinhada politicamente pelo marido ou pelo pai. Este é o perfil mais comum entre as 44 deputadas estaduais em exercício que herdaram capital político de familiares. Precisamente 36% do total de 121 deputadas das atuais legislaturas iniciaram a carreira política com forte apoio de um familiar, e somente duas delas herdaram esse capital de uma mulher. O levantamento foi feito pela pela Gênero e Número a partir de dados cruzados do Tribunal Superior Eleitoral e da biografia pública das deputadas em sites ou páginas oficiais. [private]

Coautora do artigo “A representação feminina no Rio de Janeiro: a influência do capital político herdado no sucesso eleitoral”, produzido na Escola de Ciências Sociais do CPDOC/FGV e publicado na revista eletrônica de Ciências Sociais da UFJF, Manuela Lenkic analisa a motivação para as mulheres lançarem mão do capital político masculino. Em entrevista a Gênero e Número, Lenkic aponta que os homens “forasteiros” na política institucional, isto é, sem apadrinhamento, são mais aceitos por serem “a cara” daqueles que já ocupam a maioria dos cargos eletivos.

“Quando a mulher acessa a política, ela tem que provar a competência muito mais do que o homem, que já naturalmente ocupa aquele espaço. Ela precisa ser credibilizada pelos pares e pela sociedade”, aponta ela, que destaca a necessidade de mulheres articularem mais de um capital (partidário, econômico, social ou familiar) para serem consideradas aptas a exercer um cargo.

No artigo publicado em 2017, Lenkic e o cientista político Philippe Guedon analisam como o capital político interferiu na eleição de mulheres na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e na Câmara Municipal da capital fluminense nos últimos pleitos. Os dados da pesquisa foram compartilhados com a Gênero e Número. Na eleição de 2016 para a Câmara do Rio, 16% (ou sete) dos 44 vereadores eleitos herdaram capital político de familiares. Entre as sete vereadoras eleitas, três foram apadrinhadas politicamente por homens, ou seja, 42%. Na Alerj, 12% dos deputados homens são apadrinhados por familiares. Entre as mulheres deputadas, 40% herdaram capital familiar. 

Norte e Nordeste no topo

Os Estados das regiões Norte e Nordeste são campeões em apadrinhamento político de mulheres: concentram 71% dos casos. Em números absolutos, Ceará e Maranhão são os Estados com mais deputadas estaduais apadrinhadas: são seis no primeiro e cinco no segundo. Em ambos, apenas uma deputada em exercício não chegou à Assembleia Legislativa apoiadas pelo capital político de um familiar. No Pará e em Rondônia, 100% das deputadas estaduais herdaram capital político, e todas de homens. Em São Paulo, Estado com 10 deputadas em exercício, duas foram apadrinhadas por familiares.

Capital familiar por partido

Para Danusa Marques, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília e pesquisadora do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê/UnB), não é o “desenvolvimento econômico” que deve ser considerado para entender a alta incidência da transferência de capital político de homens para mulheres nas regiões Norte e Nordeste. Coautora do artigo Capital Familiar e Carreira Política no Brasil: Gênero, Partido e Região nas Trajetórias para a Câmara dos Deputados, ela acredita que o ponto que diferencia as regiões do restante do país é a variedade de rotas disponíveis para chegar até a política partidária.

“Espaços que são mais desenvolvidos, no sentido de mais populosos, com maior taxa de escolaridade e melhores condições de vida, pensando em indicadores sociais, são espaços que têm uma complexidade informacional maior. Não é que ter mais renda significa que leve a fazer política de forma diferente, mas tem a ver com a complexidade e diversidade daquele ambiente. Faz sentido pensar numa diversidade de rotas de acesso à política [mais ao sul do país], que facilita grupos diferentes conseguirem ingressar na política”, analisa.

Na análise de Marques, também é a escassez de rotas que influencia na alta transferência de capital político para mulheres em partidos de centro e direita. A cientista política aponta que além desta, uma outra rota historicamente possível é aquela ligada aos movimentos sociais ou sindicais, principalmente na década de 1990. Marques destaca que, entretanto, a base da política tradicional ainda é muito forte, principalmente em relação aos “patriarcas” da política.

As siglas mais conservadoras são as mais fortes no apadrinhamento de mulheres por familiares. MDB e PSDB são os partidos de 1/4 das deputadas em exercício que herdaram capital político. Das cinco deputadas eleitas pelo DEM, quatro herdaram o capital político de familiares. Nos partidos opostos ao conservadorismo, o fenômeno varia. Duas das sete deputadas eleitas pelo PCdoB figuram entre aquelas com capital político herdado, e quatro das 22 deputadas estaduais do PT, também.

Cargos de padrinhos políticos

Para Marques, os partidos mais conservadores apostam no capital familiar para garantir a eleição.

“O partido político é central para entender quem se elege e se candidata. Temos que comparar a competitividade, e a pessoa mais competitiva é aquela em quem o partido mais investe. Acredito que o partido tem mais chance de apoiar a candidatura de mulheres com esse capital porque ele mostra que elas têm um diferencial forte”, afirma, e pontua que apesar da transferência de capital ser importante também para os homens, ela pesa, sim, mais para a eleição de mulheres.

*Lola Ferreira é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.
*Natália Leão é doutoranda em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESPUERJ) e colaboradora da Gênero e Número.

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