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Política 2018

Benedita da Silva: “Ninguém faz intervenção na Vieira Souto”

Benedita da Silva discursa em comemoração do Dia Internacional da Mulher (03/2018). Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

Primeira mulher negra e da favela eleita para a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, nos anos 80, Benedita da Silva construiu sua trajetória no Partido dos Trabalhadores, onde está até hoje. Aos 75 anos e no quarto mandato como deputada federal  – os primeiros foram consecutivos entre 1987 e 1995, e desde 2011 ocupa novamente a cadeira – ela também foi senadora e a primeira governadora no estado, quando ascendeu da posição de vice, no então mandato de Anthony Garotinho, em 2002. Como mulher e parlamentar que conhece profundamente a realidade sociopolítica local, Benedita conversou com a Gênero e Número sobre como enxerga o momento de intervenção federal, período agora marcado também pelo assassinato da vereadora Marielle Franco

Da Redação da Gênero e Número

Gênero e Número – Como a senhora está acompanhando e vivendo esses dias tão tumultuados após o assassinato de Marielle?

Benedita da Silva – Primeiro, sinto uma imensa perda, principalmente para as mulheres negras. Estou muito abalada, muito ainda tocada por isso tudo. Temos poucas representações nas Assembleias Legislativas, na Câmaras de Vereadores, e nossa trajetória se constrói em cima de muita luta, de muito esforço, porque ninguém chega olhando pra gente nos achando belas e maravilhosas. Pelo contrário. Nós não temos as características exigidas por esse mundo masculino, branco e machista. Então é claro que todas nós, e são todas mesmo, porque se alguma disser que não passou na pele, eu posso garantir que está mentindo, lutamos muito muito para avançar na política, e fazemos a diferença nos lugares onde chegamos, mas quando você tem uma figura que não correspondente ao imaginário racista e machista há um enfrentamento. Por saber que é tão difícil avançar, a gente sente como se tivessem metralhado todas as mulheres negras diante do que aconteceu com Marielle.

Como parlamentar, mulher negra e que morou por tanto tempo na favela, portanto com uma trajetória que tem semelhanças com a de Marielle, como vê o cenário para essas mulheres negras que estão na política?

Benedita – Como parlamentar, eu estou com medo e preocupada. Eu recebi a notícia da execução da Marielle no Fórum Social Mundial, em Salvador, onde eu estava também para a reunião de trinta anos do Fórum de Mulheres Negras, evento em que eu havia estado, como uma das organizadoras. Quando a primeira mulher começou a falar na nossa reunião sobre tudo o que já fizemos nesses trinta anos, a gente se olhava, como se perguntássemos como fizemos tanto e terminamos essa reunião dizendo que o momento tão difícil não ia nos tirar a esperança de lutarmos por um mundo menos desigual. Saí de lá e fui pro hotel, onde tive a notícia da execução de Marielle. Foi como se apagassem todas as luzes no meio de uma noite. Mas a gente sente medo e segue. Eu quero fazer discussão de identidade dentro do debate sobre mais mulheres na política, quero trabalhar esse compromisso. Conheci Marielle pequena, quando eu fazia trabalho na Maré [Complexo da Maré], em conjunto com a Pastoral. Foi um orgulho enorme vê-la crescer e se tornar uma liderança, ver as pessoas acompanhando Marielle. Então esse é nosso objetivo. Medo a gente tem, sim, eu tenho medo que comecem a matar dessa forma as mulheres negras lideranças como já matam nossos filhos, nossa juventude negra, mas nesse momento temos que transformar nosso luto em luta.

Após a morte de Marielle, temos visto uma onda de acusações, de boatos que tentam manchar a imagem e a memória dela. Por que, na sua opinião, isso tem acontecido dessa forma tão violenta?

Benedita – É uma tentativa de desconstrução de imagem. Eu também me pergunto: mas por que isso? Eu não vejo acontecer nem mesmo com os bandidos, quando é bandido homem, com homem não acontece. Eles dão é grandes entrevistas, publicam livros. Mas a mulher não. Mulher negra, quando ocupa um lugar de fala como ela, como vereadora, é uma denúncia, joga por terra o mito da democracia racial, e então nos vemos no meio de processos violentos como esse.

Nos anos 80, a senhora também fez parte da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, inclusive como primeira mulher negra a ocupar esse cargo na cidade. Anos depois, ocupou a cadeira do Governo do Estado. As opressões diminuíram à medida em que avançou na vida política?

Benedita – Eu sofri muito. Sou uma mulher vitoriosa, não individualmente apenas, porque é vitoriosa a proposta que eu abracei, a bandeira que eu ergui, mas a gente, mulher negra, também vive uma solidão na política, e isso é doído. Eu fico a imaginar como Marielle, mulher, negra, bissexual, criando filho, passou por todo o processo de discriminação e seguiu galgando aqueles espaços, mas quanto mais você galga, mais você sente na pele, mesmo que você não fique curtindo aquilo ali, que você vá lutando e enfrentando. E no momento em que o racismo atravessa o momento eleitoral, vemos as piores disputas. No caso de uma mulher negra, da favela, como também é o meu caso, é incrível como a crueldade do racismo, do preconceito atravessa esse processo eleitoral. Eu lembro que quando fui eleita, ouvi assim que cheguei na Câmara que eu era uma demagoga, e desde assédio sexual até discriminações menores, quase imperceptíveis, como ficar com o último gabinete, tudo isso eu vivi.

Benedita foi a primeira senadora negra do Brasil. Na foto, fala durante reunião no Senado para discutir novos direitos para empregadas domésticas (26/04/2013)
Benedita foi a primeira senadora negra do Brasil. Na foto, fala durante reunião no Senado para discutir novos direitos para empregadas domésticas. Foto: José Cruz / Agência Brasil (26/04/2013)

Os assédios eram constantes?

Benedita – Na Câmara foi bastante. E eu, uma mulher casada, bem casada, porque sempre fui bem casada, sempre escolhi os homens que queria ficar, e os caras faziam apostas sobre quem ia sair comigo, me faziam esperá-los em diversas ocasiões, sempre esperando uma submissão. E não só na Câmara, mas no Executivo, e sempre muito assédio moral também.

Quando eu assumi o Governo do estado por nove meses, foi horrível, até mesmo a imprensa me trazia perguntas inacreditáveis. Me perguntavam como eu iria lidar com os tapetes persas, com as relíquias do Palácio onde eu moraria com a minha família, com meus netos. Eu respondia que eu tinha passado a maior parte da vida limpando tapetes como aqueles, cuidando de relíquias dos que as possuíam, mas além disso eu tinha que dizer que a gente, mulher pobre, tinha educação e também podia criar nossos filhos pra ter contato com belo, com a arte. Eu sempre digo que eu não tenho compromisso com a pobreza, que eu tenho compromisso com os pobres, com as minorias, eu sou mulher negra, evangélica, ex-favelada, mas sempre respeitei em todos os espaços a pluralidade.

Como deputada federal que tem participado de reuniões da Comissão da Câmara que acompanha a intervenção federal no Rio de Janeiro, o que a senhora pensa a respeito do que está ocorrendo na segurança pública do estado?

Benedita – Ninguém faz intervenção na Vieira Souto [avenida do Leblon, um dos símbolos da zona sul carioca], nos apartamentos. Eu quero saber qual é a política pública de segurança para as pessoas que estão na favela, entre tiroteios. O que a gente vê acontecer todos os dias é uma violência sem fim. Matam jovens, armam tiroteios, a polícia diz que foi o bandido, o bandido diz que foi a polícia. Tentam fazer parecer que essas pessoas não têm direito à proteção, a qualquer privacidade, com invasão de casas cotidianamente. Essa intervenção não dá qualquer segurança ou garantia à população negra, pobre, que mora nas favelas.

A senhora espera que o assassinato de uma mulher negra parlamentar da favela, com a trajetória da Marielle, possa repercutir de forma positiva no debate sobre esses direitos violados e nas eleições de 2018?

Benedita – Eu espero, e eu quero, que esse sangue derramado, tanto dela quanto o do motorista Anderson, faça a gente seguir com esse debate constantemente, não apenas nas eleições. Que a gente vá ao Supremo [STF], com as pautas que dizem respeito ao sistema prisional e, logo, às pessoas negras, às mulheres e homens negros, principalmente. A Marielle não era uma mulher negra sozinha. Nós somos milhares e queremos milhares de nós ocupando espaços políticos e estamos discutindo isso nos nossos partidos também, essa participação da mulher negra. Não me importa se fulano é ótimo, se tem pautas pra gente. Eu também sou, eu também vou batalhar, e espero uma outra eleição.