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“Atualmente tenho buscado produzir para além da dor que o racismo nos impõe diariamente”

Para Luna Bastos, a arte urbana é a forma de arte mais democrática que existe | Foto: Divulgação

Artista urbana e tatuadora, a piauiense Luna Bastos diz que começou a se entender como artista pelas intervenções na rua; segundo ela, a faculdade de psicologia a fez pensar em que tipos de emoções e sentimentos quer  transmitir através de sua arte

Por Sanny Bertoldo* 

Em telas, paredes e muros, personas que representam figuras humanas em suas múltiplas vivências. Na reconstrução e ressignificação da identidade negra, uma produção que se pretende expressar para além da dor diária do racismo. Aos 24 anos, a piauiense Luna Bastos é uma artista em constante movimento, que traz de seus estudos de psicologia na Universidade Estadual do Piauí o entendimento de como as emoções se manifestam no corpo e se traduzem em arte. 

Com obras espalhadas por várias cidades e corpos (ela também é tatuadora), Bastos percebeu que podia ser artista na adolescência, quando fez uma uma oficina de grafite. “Até então eu não desenhava, mas me encantei com a possibilidade de comunicar aquilo que eu sentia através dos muros e poder me comunicar com a cidade”, diz. 

No início do ano passado, ela trocou Teresina por São Paulo, porque “artistas que residem fora do eixo Rio-SP não possuem tanta visibilidade”, e em maio se tornou a quinta artista convidada a fazer uma intervenção na fachada do Itaú Cultural, na capital paulista, como parte do projeto Arte Urbana, com a obra “Flores Rompendo o Asfalto”. Neste mês de dezembro, Luna Bastos fez uma obra exclusiva para a Gênero e Número,  intitulada “Travessias diárias para a igualdade racial e de gênero”, que você pode adquirir aqui

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Confira a entrevista:

 Você trocou sua cidade por São Paulo no início de 2019. O que essa mudança tem a ver com sua construção artística?

Sou natural de Teresina, no Piauí. O que motivou a minha mudança inicialmente foi o desejo de poder ampliar o alcance do meu trabalho enquanto artista e também tatuadora. Infelizmente, artistas que residem fora do eixo Rio-SP não possuem tanta visibilidade. 

Já pintei em São Luís, Teresina, Fortaleza, Recife, Salvador e Belém, mas os meus maiores murais estão em São Paulo, Rio e Belo Horizonte.

“Travessias diárias para a igualdade racial e de gênero”, de Luna Bastos, para a GN | Foto: Reprodução

De que forma a psicologia e a arte conversam em sua obra?

A psicologia está sempre presente no meu trabalho, direta ou indiretamente, pois me possibilitou ter um olhar mais profundo e sensível . Os estudos durante a graduação, sobre como as emoções se manifestam no corpo, foram fundamentais no processo de desenvolvimento do meu trabalho no campo das artes, pois expresso emoções e sentimentos através de personas, que representam figuras humanas em suas múltiplas vivências.

Quais são os temas mais presentes em seu trabalho?     

Uma das narrativas do meu trabalho está na importância da representatividade no processo de reconstrução e ressignificação da identidade negra. Atualmente tenho buscado produzir para além da dor que o racismo nos impõe diariamente. Por isso, estou em um momento em que tenho mudado a perspectiva do meu trabalho porque não se trata de negar a dor que sentimos, mas o racismo não nos define. Há muita potência para além da dor. 

Expresso quem sou e o modo como percebo o mundo ao meu redor através da minha arte, mas cada pessoa que transita pela cidade e encontra um mural produzido por mim vai interpretar aquilo que vê a partir das próprias vivências

Essa mudança passou a se tornar mais evidente e mais presente na minha produção de murais em São Paulo e também no Rio de Janeiro, onde tenho trabalhado a importância do autocuidado e do autoamor como formas de resistência, ressaltando a potência que é ser uma mulher negra amando a si mesma e amando aquilo que faz. Em alguns murais também tenho retratado simbolicamente questões relacionadas à resiliência e processo de cura.

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Em que momento se entendeu como artista? E por que a opção pela intervenção urbana?

Eu passei a me entender como artista pelas intervenções na rua. Na minha adolescência eu fiz uma oficina de grafite. Até então eu não desenhava, mas me encantei com a possibilidade de comunicar aquilo que eu sentia através dos muros e poder me comunicar com a cidade, e isso despertou em mim o desejo de começar a desenhar e a pensar como eu posso transformar em imagens aquilo que eu sinto, aquilo que eu percebo no mundo. E nesse ponto a psicologia me ajudou muito a amadurecer esse olhar e pensar em que tipos de emoções e sentimentos eu quero transmitir através do que eu faço.

Acredito que a arte urbana possibilita um acesso mais democrático à arte, pois ela não está restrita às paredes de  museus e galerias. Expresso quem sou e o modo como percebo o mundo ao meu redor através da minha arte, mas cada pessoa que transita pela cidade e encontra um mural produzido por mim vai interpretar aquilo que vê a partir das próprias vivências.

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Além de trabalhar com arte urbana, você também é tatuadora. Como enxerga a mulher neste ambiente? 

Iniciei no ramo da tatuagem há quatro anos e desde que iniciei é nítido o avanço da inserção de mulheres nesse mercado de trabalho, tem tido uma boa aceitação. Mas quando eu penso no recorte racial, ainda há um longo caminho, sabe? É muito discrepante o acesso e a questão dos privilégios. A tatuagem ainda é um meio muito branco. É uma questão bem delicada porque nos espaços em que estou eu sou minoria, infelizmente. 

O que representa a obra exclusiva que você produziu para a campanha de fim de ano da Gênero e Número?

Eu busquei representar a importância da união entre mulheres na travessia e na luta em busca da equidade racial e de gênero. É uma luta diária pela garantia de direitos básicos, e ainda há um longo caminho a ser trilhado, há muitas barreiras para atravessarmos, mas seguimos.

*Sanny Bertoldo é editora da Gênero e Número