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Artigo: Ascensão Social e Empoderamento

*Por Márcia Fernandes

O capitalismo é um sistema que se baseia na desigualdade, com uma classe explorada e outra exploradora e se aproveita dos segmentos mais vulneráveis para essa exploração.

Um exemplo disso é o trabalho doméstico não remunerado atribuído ainda hoje às mulheres, a famosa e imutável divisão sexual do trabalho. A escravidão doméstica da mulher a exclui do trabalho social produtivo e do poder social, retirando seu valor no mercado.

A opressão à mulher não surgiu no capitalismo, mas nele adquiriu contornos que reforçam e sustentam uma sociedade patriarcal até hoje. É tão entranhada na nossa sociedade que a própria mulher tem dificuldade de enxergá-la por vezes.

O ambiente privado foi transferido para esfera social, pois quando à mulher foi conferida excelência em profissões, eram sempre as que reproduziam esse recorte de gênero, reproduziam ações ligadas ao dever de cuidado. O capitalismo é antifeminista, fato.

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Superando todas as adversidades, a mulher que alcança sua independência financeira (muitas vezes através de concursos públicos) corre o risco de ser presa fácil na ideia de empoderamento individual. A ideia de enxergar-se como uma pessoa independente, buscando e conseguindo lugar nos espaços existentes, com a autoestima em dia, incluída socialmente no mundo comandado por homens brancos, saindo da invisibilidade intelectual, por vezes se livrando do preconceito geográfico que recebeu da vida, é muito sedutora. É muito fácil e sedutor relacionar a independência financeira com emancipação, empoderamento e outros conceitos do movimento feminista. Não julgo, só peço reflexão.

A mulher que está no caminho de sua libertação, mas que está de forma isolada e desorganizada, está iludida com o prestígio burguês que a independência financeira pode dar.

Essa transformação individual deve dar lugar à organização e à luta política, em busca de espaços de representação, com poder de decisão e transformação, sem se afastar do contexto em que vive essa mulher.

A conquista individual só faz sentido quando uma mulher empodera a si, e tem condições de empoderar as outras, usando o espaço conquistado como espaço de todas. Se não fora assim, a mulher que se sente completa e existente individualmente só valida e reforça as ideias machistas.

O discurso de que qualquer mulher pode “chegar lá” esquece as barreiras estruturantes existentes no sistema. Estruturas essas que permitem a manutenção, difusão e aceitação de comportamento preestabelecido. A visão e aceitação individual da conquista é baseado apenas no aspecto pessoal do self-improvement, característico do modelo capitalista.

A emancipação feminina coletiva, que é o verdadeiro sentido da luta feminista, é substituída pela emancipação econômica da mulher como indivíduo. O empoderamento individual simboliza tudo que a burguesia imperialista supostamente democrática deseja, pois ele separa. Prevê por sua natureza a resolução do problema dentro da ótica do capitalismo.

Empoderamento feminino deve ser encarado de forma coletiva. O foco do empoderamento feito exclusivo no gênero agrava as distorções femininas. O empoderamento tem que pensar coletivo levando em consideração recortes culturais, sociais e econômicos. Não pode ser um movimento que não traga transformação social.

A mulher “que chegou lá” deve usar seu lugar social para ser sujeito ativo de mudanças, para pensar projetos e novos modelos de ações identitárias e os resultados devem ser colhidos para todas; conquistas individuais não revelam empoderamento do gênero feminino. Mas para isso a mulher tem que ter consciência da opressão que sofre e de todas as formas de sua manifestação, em todos os espaços.

Temos que encontrar nosso próprio caminho e não buscar o mundo masculino. O mito da mulher moderna já caiu há muito tempo. A mulher bem-sucedida que dá conta de suas multitarefas de forma feliz nunca existiu. Foi fabricada para que não sobrasse tempo para mulher buscar espaços de real transformação social. Os instrumentos de opressão atualizam-se, reinventam-se. A emancipação financeira na verdade só trouxe acúmulo de funções para a mulher.

É comum ouvir que “a revolução será feminina”. Revolução traz em seu conceito a ideia de uma mudança radical dentro de uma sociedade – que ocorre nos contextos político, econômico, cultural e social -, onde é estabelecida uma nova ordem, que é instituída pelas forças políticas e sociais vencedoras. No sentido figurado, uma revolução pode ser o sinal de uma transformação profunda. Dai a necessidade de pensamento coletivo e de ocupação de espaço.

*Márcia Fernandes é defensora pública e ocupa o cargo de secretária-geral da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro.

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