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Livro explica como cruzada antigênero enfraquece democracias no Brasil e na América Latina

Flávia Biroli e Maria das Dores Machado discutem democracia, gênero e neoconservadorismo em livro | Foto: Divulgação Boitempo

Às vésperas das primeiras eleições após a vitória de Bolsonaro, Flávia Biroli e Maria das Dores Machado, autoras do recém-lançado livro “Gênero, neoconservadorismo e democracia”, refletem sobre a capilaridade dos movimentos feministas, antirracistas e LGBT em um Brasil de aliança entre evangélicos e neoliberais

Por Maria Martha Bruno* 

Como a ascensão do discurso antigênero se relaciona com o processo de corrosão da democracia enfrentado por Brasil e outros países governados pela extrema-direita populista? Quais os pontos de contato do projeto político de evangélicos e neoliberais? O que ainda falta para o feminismo brasileiro aumentar sua adesão em camadas ainda afastadas das discussões sobre gênero? Flávia Biroli (professora de Ciência Política na UnB), Maria das Dores Campos Machado (professora de Serviço Social da UFRJ) e Juan Marco Vaggione (professor de Sociologia na Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina) reuniram no livro “Gênero, neoconservadorismo e democracia” (Ed. Boitempo) reflexões que ajudam a entender a aliança conservadora que domina a política institucional no Brasil e está em ascensão em parte da América Latina. 

Às vésperas da primeira eleição após a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, Biroli e Machado falam com cautela sobre suas perspectivas para as forças feministas, antirracistas e LGBT nas urnas e pregam a aproximação de mulheres cristãs neoconservadoras: “Nós, do movimento feminista, temos que definir uma agenda de trabalho junto a este segmento, reconhecendo que nossos discursos e os tipos de estratégias de atuação precisam ser repensados e que as escolhas destas mulheres são racionais”, diz Maria das Dores Machado. Flávia Biroli aponta que a agenda de comportamento também deve ser apropriada pelos segmentos democráticos e pluralistas: “As alianças dos setores progressistas não podem separar o ‘moral’ e o ‘econômico'”.

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Confira a entrevista:

Passados quatro anos das eleições que infligiram uma derrota significativa ao petismo e dois anos da eleição de Jair Bolsonaro, como avaliam a perspectiva de desempenho de agentes políticos feministas, antirracistas e LGBTs nas eleições de 2020?

MDM: As inúmeras tentativas de revisão das políticas públicas implementadas pelas gestões do PT pelo atual governo colocaram os movimentos sociais e a esquerda em geral em uma posição mais defensiva, na tentativa de minorar os prejuízos da guinada ideológica. De qualquer maneira, observa-se em algumas cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, uma mobilização dos movimentos evangélicos mais liberais, assim como dos setores LGBTI, negros e feministas para eleger candidatos que representem os interesses destes grupos. Formas inovadoras de participação em pleitos, como as candidaturas coletivas, estão sendo colocadas à prova e podem ajudar alavancar novos atores políticos, mas o momento é de muitas incertezas e riscos e só poderemos fazer avaliações mais confiáveis depois das eleições.

FB: Há também uma mobilização importante de mulheres que apresentam suas candidaturas como feministas e antirracistas, assim como de plataformas para fortalecer essas candidaturas. Isso envolve, inclusive, rastrear ações de desinformação e violência política. No contexto em que vivemos, discursos de ódio têm sido normalizados e mesmo usados como estratégia por candidatos de extrema-direita.

É importante lembrarmos que, em 2018, os dois candidatos que quebraram a placa de Marielle Franco foram eleitos. Por outro lado, a resistência coletiva, na forma de protestos como aqueles que exigiam justiça por Marielle e o #EleNão, renovam redes de atuação política. As eleições municipais expressam disputas locais e variam ao redor do país. Ainda assim, é possível verificar que essa dinâmica polarizada, de violência, mas também de resistência, se apresenta.

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Da mesma maneira que o neoconservadorismo é resultado de uma aliança entre agentes neoliberais e cristãos conservadores, vocês vislumbram alguma aliança no campo pluralista e democrático, com esta mesma musculatura e capaz de fazer frente ao espectro dominante atual?     

MDM: Observamos a existência de esforços neste sentido, principalmente nas redes sociais, com a circulação de manifestos pedindo a união da esquerda nas capitais. Mesmo partidos como PT, PSOL e PDT parecem ter dificuldades para o estabelecimento de alianças neste primeiro turno. Esta vai ser uma eleição complicada e atípica.

FB: É importante que as alianças sejam construídas numa perspectiva democrática e de defesa dos direitos humanos. O neoconservadorismo tem reunido a regressão na agenda de direitos de minorias políticas e agendas neoliberais que tornam as vidas das pessoas mais precárias. O Estado é reorientado de formas pouco ou nada democrática, reforçando visões não pluralistas e normalizando desigualdades. As alianças dos setores progressistas não podem separar o “moral” e o “econômico”. É preciso apresentar projetos alternativos sem compartimentar ou hierarquizar direitos e sentidos de justiça social.

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Maria das Dores, você escreve que “o ativismo de mulheres cristãs neoconservadoras joga luz nas diferenças ideológicas dentro do segmento feminino, tornando a tarefa das feministas ainda mais espinhosa”. Pode comentar a disputa entre o protagonismo de mulheres nos campos neoconservador e feminista no Brasil e o papel das igrejas nesse processo?

Os movimentos feministas, LGBTI e negro empurraram a agenda da desigualdade para fora dos limites clássicos da classe social. Pelo caráter liberal dos dois primeiros, eles apresentam mais dificuldade de estabelecer pontes com as camadas populares e especialmente com as mulheres. As igrejas, ao falar com a linguagem da emoção e do cotidiano das mulheres, estão mais presentes neste segmento. De certa forma, as mulheres encontram naqueles espaços uma rede de solidariedade e uma oportunidade de vida para além da casa e das relações familiares propriamente ditas. Muitas aprendem a ler e a importância da leitura nos bancos das igrejas, outras desenvolvem a oratória e a capacidade de circular no espaço público como missionárias ou militantes dos movimentos conservadores. A sociedade não oferece outra possibilidade de encontros para estas mulheres, e ali elas podem experimentar um caminho de ascensão social e política tornando-se, algumas poucas delas, atrizes políticas.

Assim, é preciso reconhecer que estas mulheres não são apenas massa de manobra. Nós, do movimento feminista, temos que definir uma agenda de trabalho junto a este segmento, reconhecendo que nossos discursos e os tipos de estratégias de atuação precisam ser repensados e que as escolhas destas mulheres são racionais. 

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Como vocês enxergam a potência e o grau de mobilização do movimento feminista no Brasil na comparação com países da América Latina, em particular Chile, Colômbia e Argentina?

MDM: É preciso disputar a moralidade sexual e a concepção de família com as lideranças religiosas neoconservadoras. A disputa implica alianças dos movimentos sociais – feministas, LGBTI e negros – com as minorias cristãs mais liberais. Temos que aprender a usar mais a linguagem da emoção para mobilizar estes segmentos. Nas campanhas argentinas pela descriminalização do aborto, vimos uma vitalidade muito grande dos movimentos feministas e uma aliança destes movimentos com setores evangélicos e católicos minoritários. Mas a análise por sociedade tem que considerar outros fatores como o grau de desigualdade, que no Brasil é muito maior do que na Argentina e Chile. Mesmo na Colômbia, onde a desigualdade econômica é também muito acentuada, a sociedade civil e, especialmente os movimentos feministas e LGBTI, mostraram uma capacidade de mobilização muito grande com a eleição da prefeita de Bogotá, Cláudia Lopes, em 2019.

Realmente, hoje nosso movimento feminista enfrenta mais dificuldade de penetração nos segmentos populares e de mobilização para além das classes médias do que o dos países vizinhos.

FB: Ao mesmo tempo, os feminismos têm se tornado mais presentes em diferentes espaços na sociedade brasileira. Multiplicaram-se os coletivos, grupos informais e, parece-me, a autodefinição das jovens como feministas tem sido mais frequente do que em momentos anteriores na nossa história. Mesmo os limites de classe foram tensionados com o aumento no número de pessoas negras e de baixa renda nas universidades públicas, fruto de políticas de cota e de apoio à permanência. Não é à toa que a educação e as universidades públicas são alvo da extrema-direita, no Brasil e em outras partes da América Latina e do mundo.

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Argentinas acompanham votação sobre legalização do aborto nas ruas de Buenos Aires | Foto: MONK Fotografía
Argentinas acompanham votação sobre legalização do aborto nas ruas de Buenos Aires | Foto: MONK Fotografía

Nas arenas de disputa da agenda moral no país — Judiciário, Legislativo, terceiro setor, educação, cultura — onde  identificam maior força dos agentes neoconservadores e onde os movimentos pluralistas são mais potentes?

MDM: A participação dos católicos conservadores na elite brasileira não é uma novidade. O que temos de novo é uma aliança destes setores com os evangélicos conservadores, que vêm assumindo cada vez mais a posição dos soldados de Cristo no front da guerra cultural. É de se esperar que, crescendo numericamente, os evangélicos passem a disputar espaços sociais e circular pelas diferentes instituições. Aumentou também a circulação dos integrantes das comunidades evangélicas pelas universidades, o que favorece as disputas pelo controle das associações que regulam as profissões, como os Conselhos de Psicologia. A história política recente mostra que os avanços conquistados pelos movimentos feministas, LGBTI e negro resultaram de iniciativas junto ao Judiciário, que até então vem se mostrando mais sensível aos anseios dos grupos minoritários. Já as casas legislativas parecem mais favoráveis às forças neoconservadoras.

FB: Durante o período dos governos do PT, muitas agendas progressistas e de garantias de direito foram recortadas ou limitadas pelas alianças que permitiam a sustentação do governo no Congresso. Nesse período, lideranças conservadoras focavam em políticas do Ministério da Educação, do Ministério da Saúde, e pressionavam para neutralizar possíveis avanços. Com a eleição de Bolsonaro, o Poder Executivo assume orientação não apenas conservadora, mas também em muitos sentidos antipluralista e antidemocrática. 

O Judiciário tem se colocado na posição de baliza para a garantia de direitos fundamentais, como nas decisões referentes ao Escola Sem Partido e ao crime de homofobia. Mas esse equilíbrio é tênue.

STF se tornou espaço de decisão de temas que não avançam em um Legislativo conservador | Foto Nelson Jr. SCO STF


Como a crônica desigualdade racial do Brasil se enquadra na agenda moral e neoliberal? Há espaço para este debate mais do que para a discussão de gênero? 

MDM: Teremos que desconstruir o discurso populista da direita e creio que a mobilização em torno da questão racial pode ser muito frutífera neste sentido. Existe uma grande percentagem de negros nas igrejas evangélicas, e o crescimento da Teologia negra nas últimas décadas mostra que alguns teólogos e líderes evangélicos estão preocupados com a desigualdade racial. Vejo com otimismo este movimento e creio que precisamos dar visibilidade a estas vozes pluralistas no campo evangélico. No universo católico, estes grupos já existiam e são mais conhecidos pela sociedade brasileira, mas, no caso evangélico, as alianças com os segmentos pluralistas e movimentos feministas e LGBTI precisam avançar mais.

A articulação da questão racial com a de gênero é mais do que necessária agora e os movimentos sociais devem ter muita clareza disto.

FB: A articulação entre feminismo e antirracismo, mas também entre estes e as lutas contra os efeitos do neoliberalismo ou anticapitalistas, é fundamental. Sem ela, não há entendimento adequado das necessidades e violências sofridas pelas mulheres em sociedades em que as desigualdades combinam as clivagens de gênero, raça e classe. Ao mesmo tempo, a potência política está na capacidade de construir projetos que sejam capazes de contemplar essas desigualdades. E os conflitos existirão, é claro. Mas há tantas bases comuns. Entre elas, a necessidade de fazer frente à extrema-direita e seu projeto anticivilizatório.

As mulheres, e as mulheres negras em especial, têm estado à frente de movimentos que trazem mais do que demandas específicas relativas a um grupo: exigem uma sociedade de tipo diferente, em que o cuidado seja valorizado e a violência não seja naturalizada.

Flávia, você afirma que “a defesa da família se transforma em um dispositivo para aprofundar as fronteiras entre os que mereceriam e os que não mereceriam proteção. Isso permite justificar (…) o rechaço a agendas de justiça social”. A proteção socioeconômica do Estado aos setores mais vulneráveis da sociedade também se insere neste rechaço?   

Ainda no início dos anos 1980, Margaret Thatcher dizia que não existe sociedade, apenas os indivíduos… e suas famílias. O complemento é muito importante. Todas as pessoas precisam de suporte, ao menos em alguns momentos das suas vidas. Como o neoliberalismo responde a isso? Situando os recursos nos indivíduos, na sua capacidade, mérito. Com isso, estimula essa racionalidade, a do mérito e da empresa, enquanto desgasta nosso sentido de coletividade. O que resta? “A família”, apresentada como fonte de afetos e de suporte. Mas é justamente nesse contexto que, primeiro, a redução de direitos (por exemplo, no caso dos direitos trabalhistas, no Brasil) torna, na realidade, mais difícil que as pessoas cuidem e ofereçam suporte umas para as outras. E, em segundo lugar, reforçam-se concepções excludentes do que é família, de quais vínculos são válidos e moralmente aceitáveis. Estamos falando de uma extrema-direita que fala em família, enquanto retira direitos e normaliza a violência.

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Uma provocação: podemos dizer que o elo entre o familismo e a lógica neoliberal atual oferece respostas à insegurança socioeconômica das famílias e tem uma estratégia de comunicação suficientemente eficaz (não no sentido de resolver as questões de desigualdade social, logicamente) que ainda não foi alcançada pelos movimentos pluralistas no Brasil?

MDM: Quando falamos no apoio dos atores religiosos às políticas neoliberais que sobrecarregam as famílias, não podemos ignorar que economistas neoliberais e religiosos neoconservadores estão lidando com o mesmo sentido de família. Temos que disputar o sentido de família com os segmentos neoconservadores da direita religiosa. E temos que buscar formas mais eficazes de comunicação sobre as relações de gênero e sobre a sexualidade para tornar este debate mais democrático. É um desafio, mas talvez possamos aprender a fazê-lo diminuindo os nossos preconceitos e ouvindo mais as mulheres que encabeçam milhares de domicílios brasileiros e se sentem atraídas pelos discursos cristãos da família. Reconhecer a atuação destas mulheres é um ponto fundamental para o desenvolvimento de formas mais estratégicas de comunicação. 

FB: Concordo, temos que disputar o sentido da família. Temos que entender que as inseguranças são reais, mas localizá-las na precarização.

Temos que debater as mudanças nos costumes de modo que não deixemos aos conservadores espaço livre para enquadrá-las como ameaças. Sabe o que pode ser importante para as forças progressistas? Neoconservadores e neoliberais não oferecem alternativas.

As contradições tendem a se acentuar. Isso ocorre tanto porque os costumes realmente têm se transformado e não vão conseguir enquadrar facilmente as mulheres e as identidades sexuais plurais, quanto porque as políticas neoliberais deixam ruínas pelo caminho. O risco é que isso alimente ressentimentos, sem que sejamos capazes de construir alternativas populares. É desses ressentimentos que têm se alimentado Jair Bolsonaro, Donal Trump, Andrzej Duda [presidente da Polônia], entre outros. 

*Maria Martha Bruno é diretora de conteúdo da Gênero e Número