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Anote este nome: Vivi Reis, candidata a vereadora em Belém, defende a presença de mais mulheres negras e LGBTs+ na política

"Eu espero abrir o caminho para mais mulheres negras. A nossa tarefa hoje central é dizer que esse espaço precisa ser feita com a gente" |Foto: Divulgação

A Gênero e Número apresenta quinzenalmente a entrevista de uma mulher que irá disputar as eleições 2020 e que merece ficar no seu radar

Por Vitória Régia da Silva*

Em 2018, a paraense Vivi Reis foi candidata a deputada federal (PSOL/PA) e teve mais de 22 mil votos, garantindo a 1ª suplência. Este ano, ela volta à corrida eleitoral como candidata a vereadora em Belém. Fisioterapeuta, estudante de pós-graduação da Universidade Federal do Pará (UFPA) e educadora popular, sua candidatura foi confirmada ontem, 16/09, na convenção do PSOL.

Mulher negra da Amazônia e bissexual, Reis quer priorizar em sua campanha a luta por mais mulheres negras no poder e por uma saúde que leve em conta os corpos negros e LGBTs+. “Em um momento de pandemia, as mulheres são as últimas a serem visadas como importantes na lógica de cuidado. Somos quem cuida, grande parte das trabalhadoras de saúde são mulheres, mas não somos cuidadas. Trazemos como motor essa perspectiva de cuidado da saúde, combate à violência doméstica e feminicídio. Defender a vida das mulheres é defender grande parte da população que vem sendo esquecida pelo poder público. A vida das mulheres tem que ser prioritária”, afirma. 

Conheça a candidata.

Como foi a sua trajetória na política?

Embora eu tenha entrado em um partido político só em 2012, antes disso eu já fazia política. Dentro do meu bairro, na minha igreja e escola. Desde a infância já era muito engajada e era uma liderança no bairro. Somos ensinadas que política é só a institucional, mas tenho hoje uma visão ampliada do fazer política. Quando eu entrei na universidade, passei a me organizar nos centros acadêmicos e depois no diretório dos estudantes da Universidade do Estado do Pará. Sou formada em fisioterapeuta e fui a primeira mulher da minha família a entrar na universidade. Para mim, era um universo muito novo. Em 2011, eu me filiei ao PSOL e, de lá para cá, venho construindo atividades e construindo movimentos sociais. Em 2013, eu estive ativa na Jornada de Junho (manifestações populares que tomaram conta do país em 2013). Em 2015, fiz residência em saúde do idoso no hospital universitário do estado e estive como representante nacional dos residentes de saúde. 

Por que decidiu se candidatar?

Embora o movimento feminista tenha crescido muito nos últimos anos, ainda somos subrepresentadas dentro dos espaços institucionais. O coletivo feminista de que sou fundadora, o Juntas, resolveu lançar uma candidatura de mulheres, e começamos a pensar o programa que seria apresentado. Depois da morte da Marielle, em 2018, pensamos em como a mulher negra precisa compor a política e decidimos que essa candidatura deveria ser de uma mulher negra. Meu nome foi indicado para ser porta-voz desse projeto político que construímos coletivamente. Essa candidatura era para demarcar posição e para levar nossas pautas para o Congresso. Para a nossa surpresa, nossa candidatura foi a segunda mais votada pelo PSOL do Pará, mais de 22 mil votos. E, hoje, sou a 1ª suplente de deputada federal do partido. 

Essa figura de mulher negra, LGBT+ e trabalhadora é um marco e um diferencial nesse conjunto de representatividade nesse espaço, mas claro que ainda não é suficiente e precisamos avançar ainda muito para poder de fato ter uma representatividade nos espaços de poder proporcional ao que somos realmente. Enquanto mulheres negras, somos grande parte da população, mas uma minoria nas tomadas de decisão. Por isso, de 2018 para cá, continuei construindo minha militância, e este ano lancei minha pré-candidatura a vereadora de Belém, para ser porta-voz desse coletivo e desse programa que tem como centralidade a pauta das mulheres negras. 

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Qual a importância de construir a sua candidatura coletivamente?

As mulheres negras sempre aprenderam que é necessário construir uma rede de apoio e agir coletivamente. Isso é muito comum. Então, para mim foi muito natural construir coletivamente porque não temos como transformar a sociedade sem fazer isso conjuntamente e de forma organizada. Se sofremos com o racismo e o patriarcado, isso é enraizado socialmente e precisamos estar bem organizadas para combater tudo isso. Hoje, estamos na construção de que eu sou porta-voz do programa  e que estou representando pautas coletivas. Vivi sem o coletivo é apenas uma trabalhadora da saúde que tem que acordar antes das cinco da manhã para atravessar o rio e ir trabalhar. A coletividade, a construção através de um movimento, são fundamentais. Fazer política tem que ser cada vez mais horizontal e eu, enquanto mulher negra, estou neste espaço, mas não só por mim, mas por todas as mulheres negras que vêm da periferia e não se enxergavam nesse espaço. 

Estamos avançando cada vez mais e sou grata às mulheres negras que vieram antes e abriram caminho para que hoje eu pudesse lançar minha candidatura. E eu espero abrir o caminho para mais mulheres negras. A nossa tarefa hoje central é dizer que esse espaço precisa ser feita com a gente.

O lugar da mulher negra também é na política, nos espaços de decisão. Quando trazemos uma candidatura com o perfil de uma mulher negra, jovem e LGBT+, há possibilidade de muitas outras entenderem que o espaço da política é também delas

Das 35 cadeiras da Câmara de Vereadores de Belém, apenas quatro são ocupadas por mulheres, sendo uma delas uma mulher negra. Um dos motes da sua campanha são as mulheres negras do poder. Qual a  importância da sua candidatura na cidade de Belém?

É alarmante esse cenário. A maioria da população de Belém é negra, a cidade é conhecida como “cidade morena”. Na prática, sabemos que é uma cidade cheia de mulheres negras, eles usam morena para eufemizar e não assumir que nossa cidade é negra. Nós precisamos cada vez mais mostrar que o lugar da mulher negra não é na cozinha, chorando sobre os corpos dos seus filhos assassinados, nos subempregos ou nos trabalhos domésticos remunerados ou não remunerados. O lugar da mulher negra também é na política, nos espaços de decisão. Quando trazemos uma candidatura com o perfil de uma mulher negra, jovem e LGBT+, há possibilidade de muitas outras entenderem que o espaço da política é também delas. A vereadora que ocupa hoje uma cadeira da Câmara é a primeira mulher negra a ocupar esse lugar, o que mostra que temos muito que avançar e apoiar as candidaturas negras femininas. 

As mulheres negras são quem conhecem verdadeiramente o espaço da cidade, que estão nos transportes públicos diariamente, na educação pública, que sofrem com a falta de saneamento básico; sabemos o que nos aflige e como transformar essas limitações em políticas públicas e transformação social. A eleição não vai resolver todo esse processo e nem vai ser a resposta para todos os problemas sociais, mas vai fazer muita diferença podermos de fato temos um espaço na câmara para debater e pauta de acordo com nossas vidas e interesses.

Qual principal proposta de sua campanha que os eleitores precisam conhecer? 

O foco da nossa campanha é relacionado à perspectiva de combate a todo tipo de violência. Como trabalhadora da saúde e defensora do SUS, temos como foco a defesa da vidas das mulheres. Quando falamos de vidas mulheres, falamos de combate ao feminicídio, combate à violência doméstica e também das questões referentes ao cuidado de saúde das mulheres. No combate ao racismo institucional do SUS e da defesa da saúde das mulheres negras, lésbicas, bissexuais e transsexuais. Em um momento de pandemia, as mulheres são as últimas a serem visadas como importantes na lógica de cuidado. Somos quem cuida, grande parte das trabalhadoras de saúde são mulheres, mas não somos cuidadas. Defender a vida das mulheres é defender grande parte da população que vem sendo esquecida pelo poder público. A vida das mulheres tem que ser prioritária. 

Quais lacunas você observa em relação às políticas públicas direcionadas às mulheres negras e LGBTs+?

Eu tenho um foco muito voltado à saúde e educação, porque sou fisioterapeuta e educadora popular. Inclusive acredito ser fundamental a educação nos espaços de saúde. As mulheres negras sabem como são tratadas nos espaços institucionais.É urgente combater o racismo institucional nesses espaços, a violência obstétrica é algo muito grave. A formação dentro da área a saúde precisa ser repensada, não temos aulas específicas sobre saúde de mulheres negras ou LGBTs+ e isso cria uma lacuna imensa porque os profissionais não estão preparados para lidar com esses corpos. Existe uma dificuldade no atendimento referente à saúde sexual das mulheres lésbicas, bissexuais e transgênero. São inúmeras as violências que sofremos, e a saúde não pode ser um lugar de reproduzir mais violência. Precisamos focar em duas perspectivas: a política educativa, para que as futuras gerações não precisem enfrentar esses problemas que sofremos hoje, e a política voltada ao enfrentamento, para termos espaços de apoio a essas mulheres que são vítimas de violência. 

*Vitória Régia é repórter da Gênero e Número