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Anote este nome: Monica Benício, pré-candidata no Rio de Janeiro, uma voz para além de Marielle Franco

O direito à cidade é sua principal pauta de campnha |Foto: Divulgação

A Gênero e Número apresenta quinzenalmente o perfil de uma mulher que irá disputar as eleições 2020 e que merece ficar no seu radar.

Por Vitória Régia da Silva*

Dois anos e seis meses após o assassinato de Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro, sua companheira Monica Benício decidiu continuar seu legado e ser pré-candidata a vereadora na capital fluminense. Arquiteta e ativista dos direitos humanos, Monica Benício é “cria da Maré” porque, assim como Marielle, nasceu e cresceu no complexo de favelas na zona norte do Rio. 

Feminista e lésbica, sua pré-candidatura pelo Psol foi apoiada por um manifesto de 150 assinaturas com nomes de ativistas, intelectuais, artistas e figuras públicas. O direito à cidade é a sua principal pauta de campanha. Neste ano, candidaturas podem ser registradas até 26 de setembro. Em entrevista à Gênero e Número, por e-mail, a pré-candidata conta sobre o papel de Marielle na sua campanha, a importância do debate do combate à LGBTfobia e mais representatividade na política brasileira. 

Além de ser a viúva de Marielle, eu sou muitas outras coisas também, é claro. Sou uma ativista que há anos milita pelos direitos das mulheres e pelos direitos LGBTs. Sou uma arquiteta que cada vez mais foi focando seu trabalho na questão da mobilidade urbana, do direito à cidade. Sou uma mulher favelada, nascida e criada na Maré. Sou filiada ao PSOL. Sou uma militante que se recusa a normalizar o nível de violência física, emocional e simbólica que o capitalismo, o colonialismo, o machismo e o racismo impõem a tantas pessoas diariamente”, destaca Monica Benicio. 

Conheça a pré-candidata.

Por que decidiu se apresentar como pré-candidata a vereadora e qual a importância da sua entrada na política partidária nessas eleições municipais?

Esta foi uma decisão coletiva. Foi maturada a partir da opinião pessoal e política de pessoas que são muito importantes na minha vida e também no meu ideal político-partidário e militante. Pessoas com quem eu pude e posso, a todo tempo, avaliar e reavaliar o impacto dessa pré-candidatura e desse possível mandato para a cidade. São integrantes do movimento feminista, do movimento LGBT+, dos movimentos por moradia e de favela, dos movimentos antifascistas, etc. 

A importância de uma pré-candidatura comprometida com a garantia de direitos é proporcional à necessidade de transformação de nossa cidade. O Rio precisa compreender a favela como parte integrante e fundamental do todo. Precisa ser uma cidade inclusiva, com segurança, educação, saúde, lazer e cultura chegando a todos os territórios. Uma cidade para as mulheres, sem assédio e a crescente violência doméstica. Nós, mulheres, estamos cansadas da sub-representação que temos na política institucional. Vejo como extremamente necessárias as pré-candidaturas de mulheres progressistas, que lutam por igualdade, pela garantia de direitos para a população. E como mulher feminista, sapatão, favelada e anticapitalista, coloco meu corpo à disposição da luta por uma cidade para todas, todos e todes. 

Não podemos naturalizar o horror que significa ter Bolsonaro na presidência do Brasil, assim como todo o conservadorismo que ascendeu junto com ele. O machismo, o racismo e a LGBTfobia estão aí como sempre estiveram, mas agora muito mais legitimados

Quais as suas principais pautas de campanha, e como está construindo a equipe para ajudá-la?

O momento da pré-campanha é quando informamos sobre a intenção de uma candidatura e construímos, a partir da escuta apurada e do acúmulo de debate que temos, nossas propostas e nossa caminhada. Este é o momento em que firmamos nosso compromisso com as causas que consideramos fundamentais. A pauta do direito à cidade, que engloba uma série de outras pautas, era minha formulação e disputa central na academia. E não será diferente numa possível atuação parlamentar. A cidade é feita de gente, de afeto, é feita por quem faz desse espaço o cenário e a base da sua própria trajetória, da sua própria existência. E essas pessoas são as mulheres, a população negra, favelada e periférica, é a comunidade LGBT+, são trabalhadoras e trabalhadores. Pessoas que movem a cidade com seu trabalho, mas que são privadas do que a cidade pode oferecer de melhor. E é para garantir a autonomia, a liberdade e a dignidade dessas pessoas que a gente pretende ocupar o espaço da institucionalidade. 

Na luta por justiça para Marielle e Anderson, durante esses dois anos e cinco meses recebi muito apoio de minha rede afetiva e política, que, inclusive, se ampliou graças à empatia de muitas e muitos. E é com essas pessoas que venho trilhando novos passos na política. Minha dedicação à luta por direitos, expressada em meu trabalho acadêmico, veio ganhando novos contornos. E isso foi me aproximando de quem tem em comum o desejo de mudança e o entendimento de que fazer justiça por Marielle é cobrar incansavelmente a elucidação do caso, mas é também lutar por justiça social, fortalecer ainda mais a luta contra o machismo, o racismo, a LGBTfobia e todas as formas de opressão estrutural que nos assolam. 

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Para muitas pessoas você é reconhecida como a viúva de Marielle. Quem é Monica Benício para além de Marielle?

Ser reconhecida como viúva de Marielle forma também minha identidade. Não é possível apagar da pessoa que sou do fato de que tive minha esposa executada, arrancada de mim e de todas as pessoas que a amam. E numa sociedade lesbofóbica, até a dor de uma mulher viúva pode ser apagada. Por isso, hoje lido com a afirmação de minha dolorosa viuvez como um ato político e, acima de tudo, de amor.

Mas, além de ser a viúva de Marielle, eu sou muitas outras coisas também, é claro. Sou uma ativista que há anos milita pelos direitos das mulheres e pelos direitos LGBTs. Sou uma arquiteta que cada vez mais foi focando seu trabalho na questão da mobilidade urbana, do direito à cidade. Sou uma mulher favelada, nascida e criada na Maré. Sou filiada ao PSOL. Sou uma militante que se recusa a normalizar o nível de violência física, emocional e simbólica que o capitalismo, o colonialismo, o machismo e o racismo impõem a tantas pessoas diariamente.

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Qual o papel que Marielle Franco terá na sua campanha?

Marielle teve e sempre terá um papel fundamental na minha vida. Foi a pessoa que mais acreditou em mim, que mais me incentivou a ser inteira no que eu quisesse ser. E isso, essa força que ela sempre representou, me acompanha em cada decisão. Marielle é uma referência política e de luta e afeto. É natural e importante que seja lembrada e reverenciada não só por mim, mas por todas as pessoas que se colocam em luta, em especial as mulheres negras. A política que se faz por muitos e muitas em seu nome, desde o 14 de março [de 2018], é a política em que ela acreditava. Que disputa a cidade, defende direitos do povo, deseja uma sociedade mais justa e igualitária. Elegemos uma bancada plural e combativa no ano de 2018 e buscaremos o mesmo em 2020 e nos próximos anos. É por ela, é por nós. 

Ao longo da nossa relação, eu vi de perto o comprometimento dela com o feminismo interseccional, com a população LGBT+ e, mais especificamente, com as mulheres lésbicas, bissexuais e as mulheres trans. Vi a seriedade com que ela tratava o tema da segurança pública, cujas políticas implementadas devastam a vida da população negra e pobre há décadas. Essa é uma referência muito forte para mim.  Assim como também tenho referencial em outras mulheres que dedicam suas vidas ao bem comum, como a Renata Souza e a Talíria Petrone, entre tantas outras.

É ao lado delas, de tantas lideranças e de nossa militância que seguiremos cobrando justiça para Marielle e Anderson e construindo a política em que seguimos acreditando. 

Os dados mostram como o Brasil não é um país seguro para a população LGBT+, onde que 6 mulheres lésbicas são estupradas por dia e 11 pessoas trans são agredidas a cada 24 horas, segundo nossas reportagens já mostraram. Qual sua contribuição, como mulher lésbica e ativista LGBT+, para o debate do combate a LGBTfobia e mais representatividade na política brasileira?

Representatividade é fundamental, e é muito importante também que ela esteja atrelada a um projeto democrático e de acesso a direitos, de justiça social e superação das desigualdades. Digo isso porque não basta ser sapatão, mulher ou LGBT+ para necessariamente representar essas lutas. É preciso consciência social e de classe e comprometimento com a transformação da sociedade.

A partir disso, a tarefa que se apresenta para mim é usar a visibilidade e rede que construí como ativista para sempre alavancar outras vozes e outras lutas que atravessam a minha própria. 

Além da formulação de projetos e cobrança pela implementação de políticas públicas voltadas para a garantia de vida digna à população LGBT, é preciso que nos mantenhamos firmes no combate ao fundamentalismo que tenta nos impor retrocessos. 

Como você acredita que pautas progressivas serão recebidas em uma sociedade que se mostra cada vez mais conservadora? E como sobreviver nesse cenário?

Nós estamos vivendo um momento tenebroso da nossa história, de imposição de retrocesso às pautas sociais. Não podemos naturalizar o horror que significa ter Bolsonaro na presidência do Brasil, assim como todo o conservadorismo que ascendeu junto com ele. O machismo, o racismo e a LGBTfobia estão aí como sempre estiveram, mas agora muito mais legitimados. E nesse cenário as pautas da esquerda tendem a ser muito mais demonizadas, inclusive através de fake news, desinformação e difamação. 

Mas, na minha avaliação, retroceder no que a gente acredita e defende não é uma possibilidade.  Reconhecemos e nos fortalecemos em nossos avanços, em cada voz que se ergue. Também no campo progressista, temos caras novas somando forças, se juntando às figuras que já compunham o cenário. Não estamos acuadas ou acuados, nos sustentamos no que sempre nos manteve em luta: o compromisso com a coletividade.

Diante do desafio, que hoje é maior, assumimos também uma responsabilidade maior. O que não é motivo para temor, é exigência de mais estratégia, de empenho.

A nossa sobrevivência e a superação desse momento histórico se apoia em nossa capacidade de constituir redes de afeto, de solidariedade e também de comunicação. Nós, da esquerda, sabemos da necessidade que temos de nos comprometer ainda mais com novas formas de comunicação, de construção de narrativas contra-hegemônicas que sejam entendidas e absorvidas por toda a população. O desafio é grande, mas nossa vontade de derrubar a lógica que nos oprime é maior. 

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A violência política contra mulheres tem escalado na última década e ativistas feministas e LGBT+ têm sido alvo de discurso de ódio e fake news nas redes. Como pretende lidar com os ataques no período eleitoral e pós-eleitoral?

O discurso de ódio e as fake news não respeitam nem a morte das pessoas. Foi cruel o que tentaram fazer com a imagem de Marielle logo após a sua morte, assim como é terrível o que fazem, rotineiramente, com os jovens negros assassinados pelo Estado. 

Eu conto com o suporte de gente muito querida, que tem me fortalecido como militante e enquanto pré-candidata. Inclusive com apoio jurídico voluntário, o que tem sido muito importante. Temos um protocolo de ação para proteção em caso de ataque virtual ou coisa do tipo. 

Em caso de difamação, ofensa, ataque ou ameaça, seguiremos esse protocolo, que vai desde o posicionamento público com agilidade ao acionamento das autoridades competentes, entre outras medidas. 

*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número.