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Anote este nome: Carla Ayres, pré-candidata em Florianópolis, quer impulsionar pautas progressistas em polo bolsonarista

Pré-candidata pelo PT: "A política pública como um todo precisa atender muitas especificidades ainda" | Foto: Arquivo pessoal

A Gênero e Número apresenta quinzenalmente o perfil de uma mulher que irá disputar as eleições 2020 e que merece ficar no seu radar.

Por Lola Ferreira*

Ainda no segundo turno de 2018, os partidos de esquerda de Florianópolis (SC) se juntaram para tentar impedir a vitória de Jair Bolsonaro (sem partido) nas urnas da capital. A história mostra que a eleição não foi inviabilizada, mas os números revelam que a união pode ter tido efeito: o candidato da oposição, Fernando Haddad (PT), saiu-se muito melhor nas urnas da capital do que nas do interior. De lá para cá, Florianópolis e Santa Catarina se tornaram um conhecido polo bolsonarista. 

Dois anos depois, a união de esquerda se mantém e vai disputar a prefeitura da capital. No mesmo movimento, candidaturas progressistas se dispõem a tentar diversificar as vozes da Câmara Municipal. Uma delas é a de Carla Ayres, cientista social e pré-candidata a vereadora pelo Partido dos Trabalhadores em Florianópolis. Neste ano, candidaturas podem ser registradas até 26 de setembro. No mês da visibilidade lésbica, ela explica a necessidade de aliar as pautas de identidade à luta da classe trabalhadora, e chama atenção para a “instrumentalização” das mulheres pela direita.

Conheça a pré-candidata.

Como foi a sua trajetória na política?

Nasci no interior de São Paulo, sou filiada ao Partido dos Trabalhadores desde a adolescência e me aproximei dos movimentos sociais feminista e LGBT+ na graduação de Ciências Sociais. Eu me mudei para Florianópolis em 2012, com uma militância mais ativa no partido e nos movimentos. 

Em 2016 me candidatei pela primeira vez e fiquei como suplente. Na suplência, ocupei a Câmara em três oportunidades, sempre pautando debates feministas e direitos humanos para pensar a cidade. Em 2018, fui candidata a deputada estadual e a mulher mais votada para o cargo em Florianópolis. Agora, volto com a candidatura.

Como a gente coloca 40 mil pessoas na rua, para lutar contra o bolsonarismo, e não consegue canalizar 3 mil votos para eleger uma mulher para Câmara? A gente também tem tentado fazer essas provocações reflexivas

Florianópolis é reconhecidamente um polo bolsonarista. Neste sentido, qual a importância da sua candidatura, progressista, na cidade?

Realmente há um conservadorismo parlamentar há bastante tempo. Na história da Câmara, somente 13 vereadoras passaram por ali, entre mulheres eleitas e suplentes. A importância é nos colocarmos nesse lugar não somente de defesa dos direitos das mulheres, mas de ser uma mulher progressista de esquerda que pensa a cidade como um todo a partir da perspectiva das mulheres. 

A gente vive a cidade de formas diferentes, e as mulheres, negros e LGBT+ sofrem o reflexo mais forte da desigualdade, toda a questão que sabemos como é. A importância está em pautar essa reflexão nos espaços legislativos e também fazer reflexão, inclusive com as mulheres, com setores progressistas de Floripa. Apesar dos problemas, foram 40 mil mulheres nas ruas contra a eleição do Bolsonaro em 2018. Como a gente coloca 40 mil pessoas na rua, para lutar contra o bolsonarismo, e não consegue canalizar 3 mil votos para eleger uma mulher para Câmara? A gente também tem tentado fazer essas provocações reflexivas.

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Há uma frente de esquerda disputando o Executivo em Florianópolis. Você acha que este pode ser um indicativo de ação a ser tomada em outras cidades em 2020, podendo até pode impactar nas eleições de 2022?

Os debates acontecem desde 2018 e, com o resultado, foi pensado que uma união de esquerda poderia garantir que uma candidatura progressista chegasse ao segundo turno, coisa que não acontece desde 1996. Existem cerca de 9 partidos de esquerda e progressistas fazendo esse diálogo.

Mas eu aposto que, sem estarmos dentro de uma configuração como esta, é difícil enfrentar o bolsonarismo que está dado, que também é representado pelo atual prefeito, e principalmente enfrentá-lo em 2022. Precisamos garantir o maior número de capitais e cidades para que tenhamos um corpo mais denso para derrubar o bolsonarismo em 2022. Inclusive com candidaturas de mulheres que estejam no campo progressista, que vão conseguir pautar os debates sobre nossos corpos, e eu acho que essa configuração de frente de esquerda viabiliza isso.

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Estamos no mês da visibilidade lésbica. Quais lacunas você observa em relação às políticas públicas direcionadas às mulheres lésbicas?

A política pública como um todo precisa atender muitas especificidades ainda. Eu acho que o debate inicial é entender que toda a política pública parte da ideia de um cidadão genérico. Quando falamos de mulheres lésbicas, é um acumulado de invisibilidade. E entender essa especificidade é demais para a cabeça dos gestores. Somos invisíveis na sociedade, e quando estamos falando de combater a invisibilidade, é sobre isso: ocupar os espaços pra se fazer visível e reivindicar políticas que nos atenda. 

É extremamente importante, mas não só, neste momento. Eu entendo, como mulher lésbica, a importância de falar sobre nós, mas acho que ainda temos que falar sobre o geral. Voltar a falar, na verdade. Teve um momento recente da nossa história que a gente ainda conseguia pautar coisas específicas, com determinado reconhecimento, mas a partir do momento que a narrativa do ódio tomou o poder, não conseguimos levar adiante o debate como antes, temos que voltar ao bê-á-bá. E acho que esse é o desafio agora.

 

Qual principal proposta de sua campanha que os eleitores precisam conhecer? 

O debate que temos feito na candidatura vai em dois sentidos: o primeiro é este, que não basta ser mulher, é preciso que paute uma perspectiva de sociedade de esquerda, e que debates específicos tenham de fundo uma defesa radical da democracia e das políticas públicas para construção dessa sociedade mais justa. 

E o segundo é que o debate específico, sobre LGBT+, lésbicas e mulheres, nesse último período, também foi entendido como pautas identitárias e esvaziadas, então, temos trabalhado que é importante fazer esse debate, mas com articulação com a classe trabalhadora e dos direitos dos trabalhadores. Porque se pensarmos que vivemos numa sociedade capitalista, de classe, cheia de opressões, no interior da classe, mulheres, negros e LGBT+ são parcelas ainda mais vulnerabilizadas. Então o debate, entre muitas aspas, dito identitário, sem um viés democrático e classista, aí sim é esvaziado. 

A tentativa que temos feito é articular todo esse debate nas propostas para a cidade que queremos, e que consigamos construir um projeto que a gente se enxergue na cidade, que a gente se veja nas proposições. Por isso é importante isso: ocupar espaços, ter canais de participação e que também articule o debate com a classe trabalhadora.

A direita já entendeu que o voto em mulheres tem apelo social. Por isso que lança tantas mulheres, por isso que o Congresso chegou a um recorde de mulheres. A direita utiliza as mulheres como instrumento de um projeto neoliberal, e temos que reverter isso elegendo mulheres de esquerda.

*Lola Ferreira é repórter da Gênero e Número.