close

Quase 40% das candidaturas trans nas eleições municipais de 2020 são de partidos de direita

Brenda Santunioni (no centro), candidata a prefeita em Viçosa, Minas Gerais.| FOTO: Roberto Filipo/Divulgação

Segundo levantamento da Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), 275 pessoas trans estão concorrendo a cargos eletivos este ano, 208% a mais do que em 2016; para a entidade, número de filiados a partidos de direita é assustador

Por Sanny Bertoldo e Vitória Régia da Silva*

Comunicadora e produtora de eventos, Brenda Santunioni mora em Viçosa, Minas Gerais, há 26 anos. Já foi chefe do departamento de turismo e vereadora da cidade e, este ano, está concorrendo à Prefeitura pelo Patriota. Ela é uma das duas candidatas trans na disputa a prefeita nestas eleições municipais (a outra é Letícia Lanz, do PSOL, que concorre em Curitiba, no Paraná) e está entre as 106 candidaturas trans que concorrem a cargos eletivos por partidos de direita, segundo a Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra). A divisão dos partidos por espectro político foi feita pelo Congresso em Foco. 

“A forma mais óbvia e simples de acabar com o preconceito é participando da vida cotidiana da comunidade. A importância de ter candidaturas de todos os tipo de pessoas, de diferentes profissões, origens, religões, é a mesma das trans: a diversidade de ideias”, diz Santunioni.

As eleições municipais de 2020 terão pelo menos 275 candidaturas trans em 25 estados, segundo levantamento da Antra (que continua sendo atualizado), um número 208% maior do que em 2016, quando houve 89 candidaturas e oito pessoas eleitas. A maioria está vinculada a partidos de esquerda (51%), mas 38,5% vão concorrer por partidos de direita, e 10,5% por partidos de centro. Para Santunioni, não há conflito. Ela diz que sempre foi convidada a participar da vida política de Viçosa por partidos de direita. Neles, não se discutem questões de orientação sexual, por considerar “uma coisa muito íntima”, e busca-se o reconhecimento pelo trabalho que realiza:

200618_ASSINE_banner

“Eu não discuto partidos, só discuto ideias dentro de partidos. A minha figura dentro de um partido tende a ser de uma postura mais corajosa, de mostrar a eles que as pessoas são iguais, que tem que valorizar a competência. Então, eu faço o que muita gente não faz, eu saio da minha zona de conforto para o enfrentamento. Mas um enfrentamento com muita educação, muito respeito, com muita competência, e sempre colocando as minhas ideias, nunca obrigando que eles as aceitem. Eu discuto se sou uma boa vereadora, boa política, se tenho uma boa oratória. Não quero ser tachada nem conhecida como uma mulher trans. Quero ser conhecida como uma cidadã que trabalha, que batalha e é igual a todo mundo. Questões íntimas ficam para mim, apesar de a cidade inteira saber da minha vida”.

Candidata em Curitiba, pelo PSOL, Letícia Lanz também defende que ser trans não é o que a define nem seu programa de campanha: “As pessoas nos imaginam ainda como marginais. Eu quero governar a cidade para todas as pessoas, não só para algumas”, diz ela, que se formou em Economia, fez mestrado em Administração e trabalhou cinco anos como consultora de empresas até ser obrigada a parar de trabalhar quando passou pela transição de gênero. A campanha por uma cidade que considera reacionária é complicada, mesmo com o apoio irrestrito do partido:

“No imaginário da cidade não há lugar para uma pessoa trans disputando vaga à Prefeitura. As pessoas não entendem como eu posso estar disputando esse lugar e ter família [já é avó] e ter emprego, por exemplo. As primeiras reações são de perplexidade, e aos poucos vamos mostrando como esse é o nosso lugar”.

Trans nas eleições

275 candidaturas vão disputar cargos eletivos em 2020; filiados a partidos de direita chegam a quase 40%

candidaturas por região

116

30

77

26

26

centro-

oeste

sul

sudeste

norte

nordeste

Candidatura por espectro político definido pela Antra

esquerda

direita

centro

15

MDB

13

PP

43

PT

27

PSOL

15

PSDB

13

PSD

12

PL

7

PSL

21

PCdoB

22

PDT

7 PODEMOS

10

DEM

7 SOLIDA-

RIEDADE

7

PTB

5

PSC

5 PATRIOTA

4

AVANTE

4

PV

12

PSB

3

REDE

4 PMB

2 DC

2 PTC

1

PCB

1

PRTB

1

UP

2

PMN

2 PROS

4 REPUBLICANOS

4 CIDADANIA

fonte Antra

Trans nas eleições

275 candidaturas vão disputar cargos eletivos em 2020; filiados a partidos de direita chegam a quase 40%

candidaturas por região

116

sudeste

nordeste

77

30

sul

26

norte

centro-

oeste

26

Candidatura por espectro

político definido pela Antra

esquerda

centro

direita

27

PSOL

43

PT

21

PCdoB

22

PDT

3

REDE

4

PV

12

PSB

1

PRTB

1

PCB

1

UP

2

PMN

4 CIDADANIA

4

AVANTE

15

PSDB

7 SOLIDA-

RIEDADE

2 PROS

15

MDB

13

PP

13

PSD

12

PL

10

DEM

7

PSL

7 PODEMOS

7

PTB

5 PATRIOTA

5

PSC

4 PMB

2 DC

2 PTC

4 REPUBLICANOS

fonte Antra

Trans nas eleições

275 candidaturas vão disputar cargos eletivos em 2020; filiados a partidos de direita chegam a quase 40%

116

sudeste

77

nordeste

30

sul

norte

26

centro-

oeste

26

Candidatura por espectro político definido pela Antra

esquerda

centro

direita

43

PT

27

PSOL

21

PCdoB

22

PDT

4

PV

12

PSB

3

REDE

1

PCB

1

PR

TB

1

UP

2

PMN

4 CIDADANIA

4

AVANTE

7

SOLIDA-

RIEDADE

15

PSDB

2 PROS

15

MDB

13

PP

13

PSD

12

PL

7

PSL

10

DEM

7

PODEMOS

5 PATRIOTA

5

PSC

7

PTB

2 PTC

2 DC

4 PMB

4 REPUBLICANOS

fonte Antra

Afastamento do campo progressista

A questão da filiação partidária, afirma Bruna Benevides, secretária de articulação política da Antra, é complexa. Segundo ela, as divisões entre direita e esquerda não são bem marcadas em muitas cidades do interior e refletem um afastamento do campo progressista, muito também pela perda da capacidade da esquerda de construir um discurso que unifique as demandas a partir das suas bases da sociedade civil. 

“É assustador esse número [de filiados a partidos de direita]. Vemos pessoas trans que estão adentrando a arena política, mas que não conseguem complexificar a dificuldade que vai ser estar em partidos que têm a bandeira da ‘ideologia de gênero’, que vão contra os direitos sexuais e reprodutivos, que votaram contra os direitos das pessoas trans. A direita faz muito esse jogo de capturar essas pessoas para terem uma representatividade que se esgota em si, que não enfrenta a ideologia partidária e silencia esses corpos”.

Tentando se reeleger vereadora em Salvador, Léo Kret do Brasil, a primeira trans no cargo na capital baiana, concorre pelo DEM. Ela conta que o partido sempre a apoiou e, principalmente, lhe dá oportunidade de trabalhar pela população LGBT+ na cidade. De qualquer forma, ressalta, isso não quer dizer que necessariamente concorda com tudo que o partido prega ou pensa:  

“A minha ideologia partidária é a social democrática e, apesar de nunca ter achado aqui em Salvador espaço em partidos de esquerda, eu acredito que nos tempos de hoje temos que estimular cada vez mais a população a avaliar candidatos e não partidos”.

Pouca representatividade e nome social

Dos 271 candidatos a cargos eletivos mapeados, 247 são travestis ou mulheres trans, grupos que mais sofrem violência no Brasil – só até agosto, já haviam sido assassinadas 129 pessoas trans no país, um aumento de 70% em relação a 2019, como mostrou a Gênero e Número em reportagem. As candidaturas de homens trans somam 14, e com outras identidades trans, 10. A maioria concorre às câmaras de vereadores, e além de Brenda Santunioni e Letícia Lanz, que disputam o cargo de prefeitas, Rafael Ensinas é vice na chapa encabeçada por Horácio Neto, do PSOL, em São Caetano do Sul (SP). Apesar do crescimento no número de candidaturas, Benevides destaca a pouca representatividade na disputa pelo Executivo municipal.

“Infelizmente, a pauta LGBT+ é tida como uma pauta ‘identitária’ e secundária. Em determinados discursos, vemos  as pessoas falando como essa pauta ‘identitária’ atrapalha outras pautas políticas. É nesse momento que identificamos uma dificuldade dos partidos de lidarem com pessoas trans, com nossos corpos, e de garantirem que as pessoas trans tenham  protagonismo e disputem a corrida eleitoral em pé de igualdade. É uma inclusão limitada e tutelada pelas pessoas que carregam o poder nas mãos”, analisa.

Para ela, é importante ressaltar o número de candidaturas trans no Norteste (77), que marca “a resistência, pautando o campo progressista”, ao mesmo tempo em que os números de São Paulo, estado com mais candidaturas trans (62), são interessantes e paradoxais, já que é o lugar onde mais se assassina pessoas trans. Por isso, diz, “é importante ter um olhar bem atento a esses marcadores, em como ficamos no limbo em diversos campos, mas ao mesmo tempo a gente identifica a luta que a gente ainda tem”.

Segundo Bruna Benevides, a possibilidade do uso do nome social pela primeira vez em eleições municipais deve ser reconhecida como um avanço para a democratização do processo eleitoral, no entanto, ela aponta imperfeições em como essa prerrogativa está sendo usada: “É uma forma de garantir a participação efetiva de pessoas trans na disputa eleitoral. As pessoas cis usam o nome social [como mostra dados do TSE], mas é importante que as pessoas entendem que o nome social é uma política especifica para pessoas trans. Apelidos, codinomes, não são nome social. Falamos da importância do nome social, mas também da responsabilidade dos órgãos que utilizam o nome social como ferramenta de inclusão de pessoas trans, para que tenham cuidado na hora da análise desses casos.”

Sanny Bertoldo é editora e Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número.